por
paulo julião
Com quatro metros de altura, um peso que varia entre os vinte e os trinta quilos e uma enorme cabeça de pasta de papel, os gigantones não passam de figuras humanas de grandes dimensões suportadas por uma estrutura com a forma de um corpo e onde o homem que o manuseia se introduz, carregando o boneco apoiado nos seus ombros. Os movimentos, claro está, são dificultados por causa do peso e equilíbrio, mas procuram andar (ou balancear) ao som do ritmo, sempre de forma solene.
À volta destes apresenta-se o conjunto oposto qual grupo de "bobos da corte", os cabeçudos são personificados por rapazes vestidos de forma desleixada que, num bailado quase tresloucado onde sobressai a enorme cabeça usada como máscara, fazem a animação popular. Representam uma pequena corte, ou mais simplesmente um rancho de filhos, que dançam, rodopiam e provocam, contagiando todos com o seu ritmo e alegria. Dado o seu carácter folião, os cabeçudos, segundo a tradição, assumem por vezes formas não humanas de diabos ou monstros de língua de fora.
A introdução dos gigantones e cabeçudos nas festas e romarias portuguesas, directa ou indirectamente, foi feita através da região espanhola da Galiza, com a importação do costume, em 1893, para a Romaria d'Agonia, em Viana do Castelo. Como explicou ao DN o historiador Alberto Abreu, o gigantone português deriva da tradição galega em que era promovida uma exibição de gigantones e cabeçudos junto ao túmulo de Santiago. "Um vianense achou muita graça àquilo e resolveu trazê-la para as festas de Viana do Castelo, no século XIX, quando se estava a criar o figurino da romaria. Na altura foi mais um número, mas depois acabou por ficar como número".
Popularizada em Viana do Castelo, onde se assumiu no decorrer do século passado como símbolo da "rainha das romarias de Portugal", a tradição vingou, já que se "encaixou na memória colectiva" do povo que ainda recordava mitos antigos, desaparecidos no tempo. Também conhecidos como "gigantes de cor-tejo", o povo acabaria por importar da cultura galega não só o número em si mas o nome de gigantone.
A tradição é, contudo, bem mais antiga, e para Alberto Abreu tem a sua origem nos contos de bons e maus gigantes inspirados na mitologia germânica, mais tarde popularizados em histórias infantis. De facto, o primeiro gigante de cortejo conhecido na Europa foi identificado em Antuérpia, Bélgica, em 1389, havendo ainda importantes registos históricos na Idade Média, em França, Alemanha e Itália.
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