por
PEDRO ROLO DUARTE
A modernidade é esquizofrénica? O desenvolvimento está condenado a ser sempre caótico e violento? A estas duas perguntas podemos responder com duas matérias do DN. O tema de abertura, sobre o "estado de sítio" em que parecem viver a Amadora e os seus bairros-problema, e a reportagem sobre uma milícia anti-homossexual em Viseu constituem duas faces de uma mesma realidade a que resulta do desenvolvimento desordenado e caótico da sociedade portuguesa nas últimas dezenas de anos. Em ambos os casos, estamos perante situações-limite criadas pela ignorância, pelo subdesenvolvimento, por uma cultura de avestruz sobre os problemas sociais e por uma democratização "autodidacta" - logo, sem sustentação ideológica, moral ou sequer ética. Sucessivos poderes - e respectivas políticas de educação e cidadania - ignoraram a formação cívica dos portugueses. Temas sensíveis em qualquer sociedade - aborto, sexo, racismo, homossexualidade, entre tantos - entraram nos nossos dias sem que houvesse a preocupação de esclarecer, prevenir, entender. A casa começou sempre pelo telhado: quando na capital se discute o casamento entre homossexuais, nas cidades e vilas do interior ainda se vive a homofobia mais rasa, rasca e atrasada; quando se debate o ordenamento das cidades e se criam modelos urbanos, ignora-se a selva criada nos subúrbios e os problemas que ali subsistem; quando se procuram soluções para a pobreza, criam-se "rendimentos mínimos" e passa-se ao lado da violência e da criminalidade activas, filhas de uma cultura que pode ser traduzida numa velha declaração de um serial killer português "Quando mato alguém fico um bocado deprimido... mas depois passa-me."
É evidente que depois, quando a bomba nos explode na cara, sob a forma da morte absurda de agentes da PSP em missão de rotina ou da perseguição a homossexuais numa cidade do interior, abre-se o debate sobre o direito, a liberdade e a própria democracia. Mas, uma vez mais, ignora-se o essencial antes dos debates, há efectivas políticas pedagógicas e sociais a criar e desenvolver. A casa vai sempre abaixo se não tem alicerces sólidos. Mas este lugar- -comum nunca chegou aos gabinetes do Poder.
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