por
pedro Mexia
pedromexia@hotmail.com
A comparação entre Jean-Paul Sartre e Raymond Aron é uma tentação normal nasceram no mesmo ano (1905), foram colegas, foram adversários, foram como que patronos da "esquerda" e da "direita". E deixaram, um e outro, alguns discípulos. Mas Sartre e Aron não são realmente comparáveis.
Sartre quis ser, e foi, "Espinosa e Stendhal", isto é, um filósofo e um romancista. E não apenas filósofo e romancista moralista, polemista, jornalista, activista, ensaísta, biógrafo, dramaturgo. A dimensão (inquestionável) de Sartre advém em grande medida desse seu enorme talento de polígrafo. Além disso, Sartre, embora mantivesse algumas características de um intelectual clássico, não abandonou nunca um certo aspecto colorido, com a boémia artística, os cafés, as amantes, a militância de rua, as viagens de apadrinhamento e a estrepitosa recusa do Nobel. Aron, pelo contrário, era um (extraordinário) académico com uma personalidade mais discreta, embora não tivesse descurado nunca o jornalismo polémico. Parece então claro que o percurso intelectual e mesmo pessoal de Sartre e de Aron não podem realmente ser comparados, excepto para efeitos de um raciocínio político apressado e partidário.
Dizer que politicamente Aron "teve razão" e Sartre "não teve razão" faz algum sentido, na medida em que o comunismo é agora visto como lixo e não como esperança. Mas nem um percurso intelectual se resume a "ter razão" nem Sartre se reduz à dimensão política. Peguem na obra de Sartre e tirem o que escreveu sobre Baudelaire, sobre Flaubert, sobre Genet, sobre os modernistas americanos, tirem Les Mots, tirem o teatro, tirem A Náusea, tirem os romances, tirem os primeiros volumes de Situations. Sartre fica irreconhecível, porque deixa de ser o escritor que também foi. Claro que a sua obra filosófica tem uma importância específica, não redutível a chavões sobre "o existencialismo". Mas se Sartre foi Sartre isso tem a ver com o seu propósito de ser "Espinosa e Stendhal" e com a forma exuberante como o conseguiu.
Raymond Aron, por seu lado, não escreveu romances, não pontificava nos cafés, não era dado ao megafone. Foi acima de tudo um estudioso escrupuloso e um "espectador comprometido".
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