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artes

Serge Daney e Jimmy Connors

por

pedro Mexia

pedromexia@hotmail.comommmm  

Os eventos (peça, filme, debates) que a Culturgest organizou em torno de Serge Daney recordaram a extrema importância desse crítico francês, precocemente desaparecido em 1992. A melhor introdução à obra de Daney está em três acessíveis volumes da colecção Petite Bibliothèque dos Cahiers du Cinéma. La Rampe reúne críticas publicadas na mítica revista entre 1970 e 1982, enquanto o Ciné Journal I e II recolhe textos escritos para o Libération entre 1981 e 1986. Mas existe outro livro indispensável para compreendermos bem Daney Persévérance (edições P.O.L., 1994), uma entrevista que este concedeu a Serge Toubiana poucos meses antes de morrer.

Persévérance é uma "cine-biografia". O cinema é visto à luz de uma experiência pessoal e está ligado a uma série de imbricações biografistas (a família, a sexualidade, as viagens, a política). Se, por vezes, a divagação parece algo auto-indulgente, o estilo conciso e preciso de Daney (que ainda reviu uma parte do texto) encontra sempre o tom certo, confessional mas sempre crítico. Persévérance mostra, a cada passo, de que modo o cinema é uma vivência eminentemente subjectiva mas também inescapavelmente discursiva.

Com um jogo de palavras, Daney cunhou o célebre conceito de "cine-filho" (cine-fils) alguém que é literalmente filho do cinema, porque no cinema projecta (e vê projectado) o seu filme pessoal, a sua aprendizagem, o seu espelho, o seu gosto, a sua melancolia. É por isso que, na entrevista, cita a magnífica frase de Jean Louis Schefer sobre as imagens que "viram a nossa infância". Lição um: os filmes são indissociáveis da nossa biografia. Mas, por outro lado, Daney sublinha que sempre achou importante "acusar a recepção" de um filme. Não apenas no sentido postal, mas no sentido tenístico. Daney, um fã de ténis, explica a metáfora: "É muito tenística, esta ideia que seria escandaloso que a um serviço não se seguisse um retorno de serviço. Eu nunca fui um grande servidor, mas, creio que sou bom na resposta, como Jimmy Connors." A experiência é comum quem gosta muito de um filme tem muitas vezes vontade de escrever sobre esse filme.

Lição dois. Jogo, set e partida para o senhor Daney.


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