por
fernanda câncio
Usar contraceptivos ou promover o seu uso; recorrer à reprodução assistida ou defender esse recurso; praticar o aborto, fazer campanha pelo alargamento dos prazos previstos na lei ou estar de acordo com a actual legislação; advogar ou aceitar a clonagem ou a eutanásia... Tudo isto é, para o padre Nuno Serras Pereira, "contribuir para, ou promover a morte de seres humanos inocentes". De acordo com tal convicção, decidiu publicar em dois diários portugueses um anúncio de quarto de página, no qual participa "aos católicos" que se revejam no perfil descrito encontrar-se "impedido de [lhes] dar a sagrada comunhão.
Para consubstanciar esta posição, Serras Pereira invoca o Código de Direito Canónico, que no seu canône 915 exclui da comunhão aqueles que "obstinadamente perseverem em pecado grave manifesto", e uma das encíclicas de João Paulo II - Evangelium Vitae, de 1995 - em que este classifica como pecados graves, e passíveis de impedir a absolvição (sem a qual não é possível a comunhão), as atitudes descritas.
A publicação do anúncio (que acabou por sair só no diário Público, já que o Jornal de Notícias terá recusado a publicação) criou alguma perplexidade e até indignação nos meios católicos e não católicos. Uma reacção que este clérigo obscuro da Ordem dos Franciscanos, sem paróquia própria e do dia para a noite alcandorado a figura mediática com direito a entrevista em directo nos telejornais, acolhe com ironia. "A única coisa que posso dizer é que agradecia que me justificassem a indignação. Seria para mim uma ajuda, porque aquilo que digo funda-se nas orientações de uma encíclica do Papa, e admira-me muito que certas partes dessa encíclica sejam, aparentemente, tão mal conhecidas. Nunca ouvi ninguém divulgá-las ou comentá-las, à excepção de mim."
Quanto ao âmbito da sua profissão de fé, que alguns alegam poder afastar fiéis das igrejas cada vez mais desertas, o padre explica que se dirige sobretudo a "vidas notórias e públicas", já que não "se pode saber dos comportamentos dos anónimos". Refere-se especificamente a "pessoas que aparecem nos jornais, na TV e na rádio a defender coisas que estão contra o ideal católico que dizem defender". É o caso, exemplifica, de "todos os que se afirmam católicos e dão por boa a Lei 6/84 que legaliza o aborto". Esses - e nesses se inclui todo o espectro partidário representado na Assembleia da República, incluindo o Partido Popular e o seu líder Paulo Portas - não receberiam dele a comunhão. Quanto ao efeito nas congregações, não teme "Tudo o que clarifica aproxima."
O padre Anselmo Borges, conhecido pelas suas posições liberais, não tem a mesma opinião. "Esta gente toda que ele quer manter fora da comunhão é, no fundo, toda a gente! " E indigna-se "Acho lamentável este... não sei como chamar a isto... anúncio. Porque não é correcto, nem do ponto de vista científico, nem moral, nem jurídico, nem religioso, meter tudo isto isto no mesmo saco. Não é mesma coisa tomar a pílula para uma maternidade consciente e a eutanásia, por amor de Deus! Se a contracepção é um pecado grave, então nesta altura 80% das mulheres, mesmo as católicas, estão em pecado grave. Há católicos que fazem fecundação in vitro - daqui a pouco é tudo proibido!"
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