por
MIGUEL GASPAR
Antes de a era digital ter transformado a nossa relação com a informação, a expressão "palavra-chave" existia para designar a solução de um enigma ou de um problema. Com as bases de dados electrónicas e os programas informáticas que as analisam, "palavra-chave" passou a ser um método para identificar a quantidade de ocorrências de uma qualquer expressão da linguagem. O nosso conhecimento do mundo passou a ser ordenado através dessa ferramenta. Os investigadores romenos cujo trabalho aqui apresentamos utilizaram a Internet enquanto base de dados para detectar quais as expressões mais comuns, as palavras-chave, do discurso mediático e político. Isto permite-nos conhecer quais os conceitos aos quais os cidadãos estão efectivamente mais expostos. Ou seja, detecta as mensagens dominantes, que ordenam os espaços sociais de discussão. E mostra que no jogo de linguagem da política, que é organizado pelos media, as expressões que contam não designam problemas concretos, mas sim o folclore eleitoral. Não falamos de défice, nem de competitivdade, mas em trapalhadas, episódios, tangas e facadas. A contabilidade das palavras- -chave mostra como o discurso mais repetido se afastou da tematização ideológica, histórica ou técnica das questões nacionais. É o que mostra a análise digital às palavras mediatizadas.
A investigação sobre os efeitos dos media procurou sempre determinar como é que as mensagens dos media circulam no tecido social quais são as que colhem, quais as que são ignoradas e assim por diante. A associação entre a informática e a linguística permite ir mais longe num capítulo onde são conhecidos os limites dos estudos de opinião convencionais e de outros modelos de análise quantitativos. Uma ferramenta como a desenhada pelo casal Caragea não dá respostas no plano da recepção. Mas o poder do motor de busca semântico permite identificar quais os conceitos que, pela repetição e pela quantidade, estruturam o nosso mundo.
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