por
joão miguel tavares
Milo Manara tem duas faces a do autor respeitável e a do pornógrafo escusável. A primeira face colocou-o entre os desenhadores mais destacados em actividade, dotado de um traço virtuosíssimo, e também capaz, como argumentista, de produzir histórias extremamente interessantes e muito elaboradas. A segunda face é aquela que lhe enche a conta bancária, mas nos últimos tempos desceu a patamares tão baixos de qualidade (como no detestável Kamasutra) que roça o absoluto desleixo criativo e mergulha de cabeça na indigência artística. A Meribérica/Liber colocou há pouco no mercado várias obras de Manara, em reedições de capa dura, que permitem constatar as duas facetas do autor italiano.
Deste conjunto, o mais interessante é o mais antigo, O Homem de Papel, elaborado num tempo em que o erotismo já era um dos pilares da obra de Manara, mas sem ocupar ainda todos os recantos da história. Aliás, ele revela um desejo de arriscar e de jogar com géneros narrativos fortes, como é o caso do western, desconstruindo-o. O Homem de Papel conta a história da paixão, mais ou menos silenciosa, entre Homem de Papel - um branco - e Coelho Branco - uma índia -, num oeste primitivo inundado por uma galeria de personagens bizarras um velhíssimo soldado do exército inglês, um reverendo que se descontrola cada vez que chove e o inesquecível Índio Contrário, dado à inversão de todas as normas sociais. Desconcertante e surreal, o livro é um dos melhores trabalhos de Manara, atravessado por um universo poético que só voltou a ser explorado nalguns volumes da série Giuseppe Bergman ou nas duas obras assinadas em conjunto com Hugo Pratt, sobretudo na obra-prima Verão Índio.
O Homem de Papel é a excepção numa bateria de álbuns onde a nudez feminina é o princípio, o meio e o fim. Não há dúvida de que Milo Manara desenha as mais belas mulheres da banda desenhada, e que esse convite ao deleite estético (chamemos-lhe assim) é certamente a razão da grande popularidade que a sua obra tem em Portugal, mas faz toda a diferença quando existe pelo menos um fio condutor para orientar o leitor por entre as curvas mais sinuosas. Neste caso, esse fio pode ser encontrado em particular nos álbuns que consistem em adaptações eróticas de clássicos da literatura A Metamorfose de Lucius, inspirado em O Asno de Ouro, de Apuleio; e Gulliveriana, uma leitura muito, muito livre do clássico de Jonathan Swift. O primeiro caso é muito mais conseguido do que o segundo, tanto em termos narrativos como gráficos, mas não há dúvidas de que Manara dá cartas neste jogo, que brevemente será enriquecido com um portfolio de Cartas de Amor de uma Freira Portuguesa.
Bastante mais banais são os restantes livros deste conjunto, embora um deles faça parte do top de popularidade de Manara o Clic acabou transformado em série (já vai em quatro volumes) e saltou inclusivamente para o cinema. É fraquito, mas pelo menos tem uma ideia erótica curiosa (um aparelho que faz disparar a líbido), coisa que falta em absoluto ao fraquíssimo Encontro Fatal. Quanto a Câmara Indiscreta, consiste num conjunto de meia-dúzia de histórias curtas, mal coloridas - quando não trabalha a aguarela, Manara é bem mais interessante a preto e branco - e de interesse desigual.
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