Em Portugal, os homens de Estado não se criam, decretam-se, escreveu Eça de Queiróz em 1867, no Distrito de Évora. Já não há reis que detenham o poder de «com uma assinatura, elevar um homem qualquer, ignorante e nulo, àquela ciência, àquela superioridade de espírito, àquela altura intelectual que pedem as regências públicas», como acrescentava Eça. Mas a televisão e a imagem substituíram o monarca nessa função de decidir, por razão ou por capricho, quem é e quem não é homem de Estado.
A elaboração da lista de deputados prolonga hoje essa mistura de vaidade, espírito burocrático e ignorância que o autor das Páginas de Jornalismo retratava no século XIX. Ficando demonstrado, através da palavra de Eça, que a mediocridade é anterior à televisão na história da humanidade.
A cobertura mediática das listas potenciou os casos negativos, à medida que estes se ofereceram. No PSD, sobressaiu a entrevista doméstica a Pôncio Monteiro, o que sempre permitiu apreciar a decoração da casa, em particular o quadro exposto sobre a lareira. No PS, destacou-se que na lista com mais mulheres de sempre ficou de fora a presidente das mulheres, além do caso Paulo Pedroso. O PP saiu em glória, fresco que nem uma alface, chegando ao excesso de se declarar «um partido sossegado» (as televisões expuseram mesmo um dirigente que adormeceu).
Assim, Portas conseguiu salvar a imagem do PP dos destroços do tsunami governamental. Já o PS, ao aplicar aos casos Pedroso e Fertuzinhos a solução cozida, que não é carne nem peixe e é carne e peixe ao mesmo tempo, mostrou que o guterrismo é uma ideologia viva. O Bloco já não viabiliza governos socialistas um ziguezaguear tranquilo. A fava do bolo-rei das listas saiu ao PSD, agravada pelo episódio do cartaz, um restyling do famoso ícone marxista-leninista, apesar das dissemelhanças capilares. Note-se como Sá Carneiro aparece, sorridente, num ângulo idêntico ao de Santana Lopes, enquanto Cavaco aparece de frente, inexpressivo. O grande soundbite televisivo foi de Luís Filipe Menezes «Cavaco não é dono da sua imagem». Assim se provando que o estatuto de homem público é definido por decreto visual.
A TVI elegeu ontem Coimbra como o duelo mais interessante da campanha. A nomeação mediática valoriza Nobre Guedes enquanto figura ecológica, o que capitaliza a favor do PP toda a carga negativa da co-incineração. A SIC lembrou que a presença de Matilde Sousa Franco é ausência de Manuel Alegre no «distrito da co-incineração». Sua Majestade, a televisão, decreta assim a sua vontade.
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