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Cosmopolitas de todo o mundo, só mais um esforço

por

PEDRO MEXIA  

Existem sempre intelectuais que não se dedicam ao estrito domínio crítico mas seguem todo o espectro da criação, difusão e recepção artística. António Pinto Ribeiro, ex--programador da Culturgest, é um desses intelectuais. Não só fez obra, criando um espaço e um público com solidez e modernidade, como tem reflectido regularmente sobre arte em artigos e conferências. Abrigos, que tem como subtítulo condições das cidades e energia da cultura, reúne textos escritos entre 2000 e 2004 e retoma, de forma mais desenvolvida, os ensaios sobre cultura, cidades e distribuição recolhidos em 2000 no volume Ser Feliz é Imoral?

Abrigos está dividido em três partes. Na primeira, mais substancial, encontramos o elogio de uma cultura cosmopolita. Com visível entusiasmo, António Pinto Ribeiro desvenda a «energia cultural» que está presente no nosso presente. Uma energia que se distingue pelo seu carácter transfronteiriço e global. O ensaísta tem sido um caso raro na esquerda portuguesa (com Alexandre Melo) no modo positivo como entende a globalização. A globalização, sobretudo na vertente cultural, é imensamente interessante e benéfica. Nunca a criação foi de tal modo fervilhante, abundante e diferente. De tal enunciado resulta determinada política. A política cultural é pois o tema central desta colectânea.

O conceito de «política cultural» é aqui abrangente mas muito preciso «instrumentos que potenciem a criação de narrativas míticas em torno da cidade». A política cultural, nesta acepção, é uma política da cidade. António Pinto Ribeiro vive fascinado pela inesgotável energia urbana. E explica que o urbanismo (no sentido lato) é condição da cultura moderna. Percorrendo momentos decisivos da cultura urbana, de Baudelaire ao condomínio fechado, o ensaísta nunca deixa que a «cultura» impeça um forte sentido lúdico e estético. Assim, a terceira parte do livro surge como um pequeno roteiro de livrarias do mundo, Babel de páginas e localidades, numa felicidade global e globalizada.

Se Abrigos é muito mais do que um mero manual do gestor cultural, isso advém de uma espécie de fôlego poético, que encontramos também nos textos de Melancolia (2003), fascinantes mesmo na sua fragilidade. António Pinto Ribeiro não se ocupa apenas de temas determinantes mas algo áridos como «públicos» ou «consumos». No seu discurso está presente toda a dimensão cultural de uma cidade, isto é, a vivência urbana integral. Nomeadamente na atenção dada aos sítios, sítios culturais em sentido estrito ou em sentido amplo. São isso os «abrigos» museus, cinemas, auditórios, galerias, teatros, livrarias. Mas também mercados, parques, estações, hotéis, cafés, aeroportos. Abrigos é o elogio do espaço público. Não apenas os famosos «equipamentos culturais», mas toda a dimensão pública de uma cidade. Se a cultura, como produção de imagem e de imaginário, põe em comum, então o espaço público define a própria cultura comunitária (e democrática). Uma comunidade é também uma comunidade de narrativas, de ficções. Daí a necessidade do cosmopolitismo, isto é, de uma abertura ao diverso. Pinto Ribeiro descura um pouco as ambiguidades e perigos do «multiculturalismo», preferindo, como bom «ocidentalista», fazer a denúncia dos perigos endógenos da nossa cultura, como a massificação e o populismo. Mas sabe, por experiência própria, que vivemos um novo modelo cultural. Um modelo de abundância, de mercado, de espectáculo. Um modelo que gera necessariamente novos modos de percepção, criação e distribuição. Um novo entendimento que não estigmatize a cultura de massas (e a «América»), e que compreenda que o efeito nefasto da massificação não está no acesso, nem na oferta, nem no consumo em massa, mas na produção indiscriminada de banalidades e de kitsch. Ora, a diversidade e a multiplicidade de um mundo global propiciam precisamente um «mercado» que permite a existência de imensas e específicas minorias.

O segundo capítulo de Abrigos diz respeito mais concretamente à política cultural do Estado no que toca aos apoios (os «subsídios»). António Pinto Ribeiro pretende sobretudo desfazer equívocos. Numa polémica com Vasco Graça Moura (os textos de ambos aparecem reproduzidos), Pinto Ribeiro contesta o paradigma «patrimonial», que recorre demasiadas vezes a chavões nacionalistas e ignora a historicidade da arte. Vasco Graça Moura foge à banalidade que geralmente domina o discurso «patrimonialista», mas usa em demasia a caricatura (como o seu opositor cede excessivamente ao politicamente correcto). Uma coisa fica clara não existem apenas «clássicos» indiscutíveis de um lado e «vanguardas» lunáticas do outro. Vasco Graça Moura ganha pontos retóricos na denúncia da «impostura» e pontos substanciais na problemática da «prioridade» estatal, mas parece mais confusa a sua tese sobre «subversão» e «subvenção». António Pinto Ribeiro é eficaz na denúncia da falsa essencialidade do juízo estético e da mutação do cânone e do consenso, mas continua sem fundamentar a pertinência do critério estético com dinheiros públicos. Em todo o caso, uma discussão rara e elevada, ecoando temas da discussão (imaginária) entre Jack Lang e Marc Fumaroli.


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