por
maria joão pinto
Ao longo de 150 anos, conseguiu resistir a vários projectos de demolição e a um quadro de abandono e negligência. Ironicamente, será num tempo em que a defesa do património está legalmente consagrada como um dever de todos que deverá, tudo o indica, desaparecer - contrariando os apelos para que fosse preservada e convertida em equipamento cultural, a casa de Almeida Garrett na Rua Saraiva de Carvalho, 68, a Campo de Ourique, em Lisboa, está à beira da demolição. Os sinais preparatórios, esses, são já evidentes aviso actualizado de emissão de alvará de construção, painel interditando a entrada no imóvel a pessoas estranhas à obra, painel identificando o empreiteiro, ruído associado a intervenções nos interiores.
Em comunicado ontem emitido, o Forum Cidadania Lisboa, responsável pela petição em defesa do imóvel, reitera o seu "mais profunda repúdio pela atitude do proprietário [o actual ministro da Economia, Manuel Pinho] que, deste modo, se recusa a esperar pelo resultado das eleições autárquicas e a parar para pensar na hipótese de transferir o seu projecto de construção para outro local que não aquele". Na hipótese de permuta, recorde-se, guardava-se uma das últimas esperanças de salvar a derradeira casa do escritor, face ao desinteresse da Câmara de Lisboa relativamente à sua protecção e à vaga intervenção do Ministério da Cultura - e do Ippar, como sua estrutura dependente - na questão.
Recorde-se que a hipótese de classificação do imóvel como valor concelhio para conversão em casa de memória foi, também ela, recusada pela autarquia, sob o argumento do seu "reduzido interesse arquitectónico", da "ausência de espólio" e da ligação de Garrett a várias outras casas. Curiosamente, esses mesmos critérios não impediram a edilidade de, num passado recente, transformar em prestigiado equipamento cultural um outro imóvel de reduzido interesse arquitectónico, praticamente sem espólio e que foi um entre os vários em que o homenageado viveu - a Casa Fernando Pessoa, igualmente em Campo de Ourique.
Da leitura do aviso aposto na fachada da última casa de Garrett - fachada que, como poucas, soube envelhecer bem, contrariando a tese da autarquia de que a casa "está em ruínas" - recolhe-se a informação de que o alvará de construção foi emitido a 26 de Abril último, sendo o prazo para conclusão das obras de 18 meses. O projecto, para fins de habitação, aponta para cinco pisos acima da cota de soleira (os edifícios que compõem a mesma frente de rua não ultrapassam, em média, os três pisos). Os campos relativos a volumetria e cércea estão por preencher. O DN tentou, em vão, contactar a empresa referenciada neste aviso - Pilar Jardim, Gestão Imobiliária, Lda.-, mas o seu número telefónico não consta dos registos do serviço de informações da PT.
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