por
pedro Mexia
pedromexia@hotmail.com
O chamado meio literário português é muito, muito pequeno. Consiste em três ou quatro centenas de romancistas, poetas, ensaístas, críticos, universitários, editores, jornalistas culturais. Uma característica que define esse meio é uma absoluta desconfiança face ao mundo exterior. Reconheço que não sou imune a esse defeito. Imagino geralmente que uma modelo ou um ministro ou um cantor de charme ou uma condessa devassa não irão espantar a grei com romances notáveis. E quando esses fatais romances são editados, leio umas páginas e percebo que o preconceito é acertado.
Mas há excepções. Há duas semanas, assisti ao lançamento do novo romance de Richard Zimler, Goa ou o Guardião da Aurora (Gótica). O livro foi apresentado pelo jornalista Mário Crespo, que todos conhecemos da televisão. Crespo fez uma excelente apresentação. Visivelmente exultante com o convite, mostrou que conhece este romance e os anteriores como a palma da mão, cruzou referências, introduziu elementos pessoais e emocionais, leu muitíssimo bem, foi divertido e incisivo. Em suma, fez uma apre- sentação melhor que dois terços das apresentações comuns. Mesmo sendo exterior ao meio e pertencendo em vez disso ao negregado meio televisivo.
Antes, tinha lido o romance Uma Sombra Laranja-Tigre (Dom Quixote), de Afonso de Melo, que curiosamente também se passa em Goa. A narrativa, que casa evocação e melancolia, está escrita numa sucessão de frases curtas, trabalhadas, repetitivas mas nunca exasperantes. É um romance sentido e com o tom certo. Afonso de Melo, jornalista, é sobretudo conhecido como assessor de imprensa da selecção nacional. E não se encontra nada mais exterior ao meio literário que o suspeito meio futebolístico.
Estas são surpresas pontuais. Eu procuro seguir quase tudo o que se publica, mesmo que venha de modelos e ministros. E quase nada vale dois minutos de atenção. Mas estas excepções mostram que assim como fazer parte do meio literário não garante a ninguém qualidade, também estar fora desse meio não significa uma exclusão automática e por decreto. Não acredito que a criação artística pertença ao domínio democrático. Mas certamente que também não é um condomínio privado.
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