por
elsa costa e silva
Mais de metade das plantas nativas da Europa estão ameaçadas pelas alterações climáticas. O Norte de Portugal e de Espanha são a segunda área do velho continente, logo a seguir às montanhas mediterrâneas, mais afectada pela perda de diversidade. De acordo com um estudo publicado na revista científica norte-americana Proceedings of the National Academy of Sciences, algumas espécies podem mesmo vir a desaparecer, enquanto que novas plantas não originárias do território europeu podem vir a assumir protagonismo na flora.
O trabalho - coordenado por um investigador sediado no instituto sul-africano para a biodiversidade - avaliou sete cenários diferentes e modelizou as transformações de 1350 espécies vegetais para o horizonte de 2080. E os resultados não são animadores "Mesmo com cenários mais moderados, com as sociedades a adoptar um comportamento muito prudente relativamente à emissão de gases com efeito estufa, verifica-se um impacto de grande alcance", explica Sandra Lavorel, que participou no estudo através do projecto ATEAM, apoiado pela Comissão Europeia e que desenvolve modelos e cenários no âmbito do aquecimento global do planeta.
Neste projecto participou também o investigador português Miguel Araújo, que salienta que as alterações climáticas podem ter graves consequências nas espécies habituadas a ambientes húmidos, abundantes no Norte de Portugal. "Devido à tendência de maior seca, essas espécies podem começar a regredir, com uma perda de diversidade na flora que pode chegar aos 60%, e as espécies mais áridas, vindas do sul, vão expandir-se e invadir o Norte", explicou ao DN o investigador. Salientando que existem ainda muitas incógnitas e dúvidas relativamente aos efeitos da mudança de clima, Miguel Araújo afirma ainda que o Sul de Portugal poderá sofrer menos variações, já que "as plantas aí já estão adaptadas ao clima seco".
De acordo com o estudo europeu, entre 27 a 42% das plantas podem desaparecer, mas a taxa estimada de transformação da flora é muito superior. Nas montanhas mediterrâneas, a perda de diversidade pode superar os 60%, já que muitas espécies deixarão mesmo de existir porque não encontrarão mais as condições necessárias no ecossistema. Por outro lado, as espécies habituadas a climas mais secos, próprios do Sul, vão invadir a vegetação do norte da Europa. A área menos afectada pelo aquecimento global do planeta é, afirma ainda Miguel Araújo, a Europa do Norte, apesar de ser a região onde se espera uma maior subida média das temperaturas.
Os investigadores estudaram duas alternativas para a sobrevivência das plantas, que será determinada pela capacidade da flora em migrar. Caso esta vegetação mais ameaçada não consiga encontrar novos habitats, quase um quarto da flora europeia está em "perigo crítico de desaparecimento".
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