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sociedade

A aventura do capelão do Miguel Bombarda

por

luís miguel viana (Textos)

Leonardo Negrão (fotos)  

Augusto Cima, beneditino, capelão do Hospital Miguel Bombarda, a enorme unidade de tratamento psiquiátrico escondida no centro de Lisboa, sabe o que espera em cada dia que avança por aqueles corredores altos. A maior parte dos doentes com que se cruza são analfabetos. Não têm casa. Não têm família. Não têm emprego. Não têm quem os venha buscar. "Não têm nada", resume o padre com o seu jeito prático, franco, de minhoto.

Depressões, esquizofrenias, doenças bipolares, psicoses. É por estas razões que a maior parte dos doentes por ali anda. Alguns por vários meses, outros por vários anos. E há os que vivem a vida inteira naquelas salas e enfermarias por coisas bem menos graves, como debilidades mentais, simples epilepsias. Muitas vezes pobres, quase sempre impreparados, os familiares cansam- -se, ficam fartos deles, já não os querem aturar mais. A loucura dói, tem espinhos, faz sofrer toda a gente. Produz uma névoa de solidão em que os internados andam suspensos.

O padre Augusto avança por entre eles, saúda-os. "Olá, como vais! Estás melhor!? Então a família?", pergunta com vivacidade. Aperta- -lhes a mão, dá-lhes abraços enquanto anda, troca beijos com raparigas. Alguns amanhecem joviais, outros taciturnos, como parados no tempo. Nem sempre é fácil distinguir os doentes dos clínicos. Há muita gente em chinelos, mostrando os pés nas manhãs frias de Primavera.

"Sr. Padre", aproxima-se uma jovem sempre ansiosa, sempre apressada, "o que eu queria era confissão e missa". Augusto Cima diz-lhe que sim, quando quiser. "Disseram-me em 98 que me calasse e, agora, só falo em confissão." Prende-se a ele, não o larga, sempre a falar-lhe daquele silêncio imposto. E ele suave, a dizer que logo veremos, só falando. Outros se aproximam, vários falam-lhe ao ouvido. Baixo, olhando para os lados, com discrição.

Queixam-se. Queixam-se muito, uns dos outros, dos médicos, dos enfermeiros, dos amigos que fizeram naquele hospital. "Está possuído, Sr. Padre, possuído pelo Demónio", denunciam às vezes. Augusto acalma a insistência "Não digo que não. Temos de ver, de observar." Esticam-se na sua magreza, gostam de o tocar, de o palpar, de sentir a firmeza da sua mão. "Possuído pelo Demónio!", repete um. "Deixa-me observá-lo e depois logo vos direi", diz pondo água na fervura.


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