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Musil e o fracasso

por

pedro mexia

pedromexia@hotmail.com  

Robert Musil escreveu que o aborrecimento o conduziu para a literatura. Alguns detractores sustentam que esse aborrecimento domina a obra do austríaco, em particular no colossal O Homem sem Qualidades (1930-1943). Noutras ficções, Musil ensaiara uma narratividade mais clássica e sedutora. Mas nesse texto in progress atingiu talvez o expoente máximo do romance ensaístico. Musil, que desdenhava do ensaio como género, estava porém fascinado pelo estilo ensaístico no romance. Com todos os perigos inerentes.

Em Sete Percursores (2003), escreve Marcel Reich-Ranicki, o maior crítico literário alemão da actualidade "Para descrever o que se subtrai à sua descrição, para formular o que considera informulável, Musil quis fazer (...) a síntese entre sensualidade e crítica, entre imaginação e reflexão, entre o narrativo e o discursivo". Para Ranicki, no entanto, este propósito redundou num fracasso Musil recorria ao ensaístico quando não avançava no narrativo e voltava ao enredo sempre que o ensaístico entrava num beco sem saída. Assim se explica que O Homem sem Qualidades se constitua como uma massa volumosa (e mesmo assim inacabada) de capítulos e digressões, que para muitos sofre de graves problemas estruturais e para outros é simplesmente um enorme caos.

É por isso importante desenganar quem procura o romance de Musil essencialmente como retrato de uma época (o Império Austro-Húngaro). Mais está enganado quem espera encontrar neste livro um romance em qualquer sentido comum do termo. Ranicki questiona mesmo se essa obra não será "um abuso desmedido e patente da forma do romance". Pouco importa O Homem sem Qualidades é cosa mentale, um texto expansivo de um homem que viveu de certo modo à margem do mundo, sustentado por amigos, recluso, maníaco e grafomaníaco. E que nos deixou páginas magníficas minuciosas, cépticas, compassivas, irónicas, assustadoramente inteligentes. Musil era acima de tudo uma mente excepcional. A questão de saber se maltratou o romance tem inegável interesse teórico, mas incorre no erro de pôr o género acima do texto. Robert Musil fracassou? Então é o mais belo fracasso da literatura moderna.


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