por
Kátia Catulo
O Presidente Xanana Gusmão aceitou ontem mediar a crise que separa a Igreja e o Governo de Timor- -Leste. O Chefe do Estado timorense será, provavelmente, o último recurso para acabar com um conflito que se arrasta há mais de dois meses (ver cronologia). Não será uma tarefa fácil, tendo em conta os primeiros resultados após os encontros que manteve separadamente com os bispos de Díli e de Baucau e com o primeiro-ministro Mari Alkatiri. Duas horas fechado numa sala do Palácio das Cinzas com D. Alberto Ricardo da Silva (Díli) e D. Basílio do Nascimento (Baucau) foram insuficientes para demover a posição do clero a demissão do chefe do Executivo continua em cima da mesa.
Alkatiri, porém, acredita ainda numa reconciliação e diz estar disponível para reunir-se com os dois bispos. Admite, no entanto, que importa antes "desbloquear alguns canais para ver se dentro de poucas horas é possível dialogar". E mais não se sabe porque ambas as partes "não querem nenhuma publicidade" sobre os encontros. Fontes governamentais admitem, contudo, que o primeiro-ministro possa reunir-se ainda hoje com os dois bispos, embora o próprio tenha esclarecido não existir uma data para futuros encontros.
O certo é que, enquanto o impasse entre o Governo e a hierarquia da Igreja permanecer, as centenas de manifestantes que bloqueiam parte da Avenida dos Di- reitos Humanos, em Díli, não irão arredar pé. O protesto entra hoje no décimo dia consecutivo e prosseguirá até ordem contrária. "A manifestação mantém-se até se encontrar a tal ultrapassagem das divergências", avisou D. Basílio do Nascimento.
Aparentemente, a "tal ultrapassagem" passaria por o primeiro-ministro recuar no decreto-lei que dita o fim da obrigatoriedade do ensino de Religião e Moral nas escolas públicas do país. Medida que Mari Alkatiri chegou a ponderar ao reconhecer, na terça-feira à noite, em entrevista à Rádio Renascença, que poderá rever a sua decisão. "O mundo muda. Um mundo estático não pode desenvolver-se", disse o muçulmano de ascendência iemenita, esclarecendo, todavia, que a decisão é do Executivo e só o "Governo poderá mudá-la".
Mas a Igreja não dá sinais de estar disposta a negociar. Duas horas antes do encontro de Xanana com os dois bispos , o episcopado timorense divulgou um comunicado em que desafia um quarto dos 88 deputados do Parlamento Nacional a apresentar uma moção de censura ao Governo. A medida, prevista na Constituição, dificilmente será acatada, uma vez que é a Fretilin que detém a maioria na Assembleia. "O pe-dido de remoção do primeiro- -ministro pelo povo é constitucional. O Parlamento pode não querer fazer isso, o que não significa que a dissolução do Governo de Alkatiri seja inconstitucional", explica o comunicado.
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