por
ricardo jorge fonseca
Estupefacção. O edifício já lá estava há algum tempo. Fechado ao público, com zonas ainda por destapar, mas já visível em toda a sua forma e esplendor. Como se passasse despercebido por entre o trânsito e fosse já um facto consumado. Até que ontem de manhã, dia 14 de Abril do ano da graça de 2005, tudo mudou. O edifício abriu. E de repente foi como se toda a gente reparasse nele. Como se ele próprio se inclinasse sobre a cidade, resplandecendo, endereçando convites. E a reacção geral foi só uma - estupefacção.
Um morador vizinho comentava a sua estranheza perante o bulício matinal em torno da Casa. "Senti-me como se estivesse no estrangeiro, a visitar uma catedral ou assim. Não parecia que estava na minha zona." E de facto tinha razão. Parecia outro lugar. Uma memória turística em que não faltavam turistas, de câmera em punho, esquadrinhando o espaço, querendo ver tudo. Aqui a diferença é que eram entrevistados por jornalistas, que também os fotografavam. E espremiam conversa. "É lindo"; "Estou espantado"; "É um orgulho para a cidade". Iam exclamando os interpelados.
E continuavam o passeio, por entre técnicos de som, músicos da orquestra, os últimos operários em acabamentos. Havia dezenas de crianças a competir pelo melhor desenho . Gente de todas as proveniências e estratos sociais. Alguns rapazes experimentavam as rampas exteriores com os seus skates. E havia pessoas paradas, fumando um cigarro, contemplando a obra. Todos os portuenses ali deverão passar nos próximos dias, é um dado seguro.
Quanto às actividades da Casa, iniciaram-se a partir das 19.00 com a apresentação do projecto de Tod Machover, um dos mais engenhosos compositores da actualidade. Inserido no "Espaço Criativo" da Casa da Música, Hyperscore é um programa de computador que permite ao grande público a criação de temas que serão depois interpretados por músicos ou por um Yamaha Disklavier Grand Piano. Para além disso, todos poderão alterar a forma de músicas conhecidas apenas com o tocar de um dedo. Durante a apresentação foram executadas algumas peças compostas no Hyperscore por crianças de todo o mundo desde 2002 (por ensemble ou orquestra de cordas). Esta instalação estará patente até ao próximo dia 24.
Durante a tarde, houve também movimento no grande auditório com os primeiros ensaios de Lou Reed, que iria actuar a partir das 21.00. Particularidade da Casa é o facto de os camarins serem visíveis do exterior, o que poderá criar alguns embaraços aos seus ocupantes. Aparentemente, para se vestirem, os músicos deverão recorrer ao quarto de banho. É mais um elemento da anunciada transparência do arquitecto Rem Koolhaas. Que ao longo do dia de ontem foi amplamente apreciada.
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