por
fernando madaílem paris
A pergunta que Jorge Sampaio nunca esperava que surgisse na-quela classe do Liceu Molière, em que o português é uma das línguas estrangeiras, saiu da voz de Jessica. A estudante perguntava ao Presidente se ele não considerava que o facto de o aborto ainda ser crime em Portugal não dava, no estrangeiro, uma "imagem de um país retrógrado e hipócrita".
"Você é muito minha amiga", sorria Sampaio, dizendo-lhe que com aquela pergunta "fez as delícias dos jornalistas portugueses" que acompanham a sua visita de Estado a França. Mas não se eximiu a pronunciar-se, mesmo explicando que tem "de ser prudente nessa matéria", pois está prevista "uma discussão na Assembleia da República", seguindo-se eventualmente uma proposta de um novo referendo, sobre o qual, depois, se terá de pronunciar - de acordo com a tramitação constitucional que, de tarde, explicaria aos universitários de Ciência Política.
"A minha posição é há muito conhecida", admitia, mostrando-se "favorável a uma evolução". Mas advertia que este ainda é um "assunto que divide muito as pessoas", provocando "um grande confronto ideológico, pessoal, político".
Mas formulava o voto de que venha a assistir-se a "um debate sossegado, esclarecido", evitando-se o extremar de posições. No fundo, que a campanha não seja encarada como uma questão "entre 'nós e os outros'; 'nós é que sabemos, os outros não têm razão'", explicava o Presidente, que sairia daquela escola envolvido por miúdos, que lhe pediam autógrafos e o fotografavam com as câmaras dos telemóveis. Antes da algazarra dos cumprimentos, Sampaio mostrava o seu desejo de que se encontre "uma solução equilibrada" e, sobretudo, "que não divida o País".
No seu entender, tem-se perdido "o debate sobre as circunstâncias das mulheres confrontadas com situações muito difíceis". E acrescentaria que está "muito solidário com as mulheres que sofrem, com aquelas que se sentam no banco das acusadas".
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