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O boato na campanha

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Jornalista  

Oboato é uma arma mi- lenar de agressão social. Ancorado nas zonas sombrias da natureza humana, foi, frequentemente, um instrumento eficaz ao serviço de interesses espúrios. Ao longo dos séculos, o boato destruiu reputações, levou ao desespero gente honrada, envenenou o coração de amantes apaixonados, arruinou carreiras políticas e profissionais. Na sociedade em rede dos nossos tempos, propaga-se a um ritmo alucinante, servindo-se, designadamente, do anonimato propiciado por algumas das mais sofisticadas tecnologias de informação - embora Molière tivesse já colocado, na boca de Tartufo, a convicção de que «contra a maledicência não há muralhas».

A responsabilidade social dos media tem, face ao boato, uma importância acrescida. O debate não é, sequer, recente, como se comprova em vários ensaios sobre o tema e também no visionamento de alguns filmes que são hoje matéria obrigatória nas universidades onde se ensina jornalismo.

Nos dias que correm, o tema remete, sobretudo, para o comportamento privado de figuras públicas. No puritanismo (de fachada...) anglo-saxónico, a imprensa sensacionalista disputa, a peso de ouro, pormenores sobre a intimidade de políticos, de artistas e de outras per- sonalidades com direito a primeira página. Mesmo os jornais de referência, pressionados por um cenário de perda crescente de influência face ao alargamento de concorrências múltiplas, não resistem a algumas incursões nesses terrenos onde as fronteiras da deontologia são cada vez mais fluidas.

A praxis dos países latinos tem resguardado, por agora, o essencial da privacidade que não tem relevância pública. Em Portugal, mesmo os jornais mais agressivos procuram evidenciar algum pudor e a chamada imprensa cor-de-rosa raramente viola o «mútuo consentimento». Em parte, é mérito dos profissionais da informação, mas resulta, sobretudo, de uma tradição de tolerância para com comportamentos íntimos.

Vale a pena revisitar, já com algum distanciamento histórico, o que se passou com Francisco Sá Carneiro nos finais dos anos 70 oriundo de uma família católica e conservadora do Porto, assumiu uma ligação extramatrimonial com uma estrangeira (natural da Suécia, país muito presente no imaginário do machismo lusitano). Alguns dos seus adversários políticos da altura pensaram ter aí um argumento de combate eleitoral. Enganaram-se redondamente: Sá Carneiro mobilizou os votos do centro e da direita e conseguiu que a maioria do Portugal conservador aceitasse Snu Abecasis sem questionar a legitimidade da ligação. Recordo que, na altura, não foi fácil explicar o episódio a alguns jornalistas de outros países, perplexos com um comportamento colectivo em nada condicente com os padrões de uma sociedade católica e pouco desenvolvida.


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