D eus já esteve mais na moda, mas eu continuo a achar-Lhe uma certa graça. Não posso afirmar peremptoriamente que acredito n'Ele, porque se tivesse a certeza absoluta da existência de Deus sentir-me-ia obrigado a entregar aos pobres tudo o que tenho e partir pelo mundo a pregar a Sua palavra. Ora, eu não me consigo desfazer de três ou quatro livros, meia dúzia de filmes e de um disco autografado pelo Caetano Veloso. Assim sendo, fico cá por casa, pastoreio a minha biblioteca, e há muito que me deixei de pregações. Em matérias espirituais, sinto-me incapaz de convencer quem quer que seja sobre o que quer que seja.
Mas Deus sempre me interessou, e continua a interessar-me. Não sei se acredito n'Ele, mas sei que gostava de acreditar - o meu crer é um modestíssimo querer crer, uma fé levezinha e dada à evaporação, um pequeno molho de convicções quebradiças, um grão de pó na sola da sandália de um qualquer santo. Mas neste esqueleto estruturalmente ateu existe um desejo de fé, que me impele a ter esperança de que quando for desta vá realmente para melhor. E se esse desejo existe devo-o em boa parte a uma comunidade monástica nascida numa pequena aldeia do sul de França, chamada Taizé.
urante os próximos cinco dias, parte da comunidade de Taizé vai estar em Lisboa para organizar o seu encontro internacional de 2004, que sempre acontece na passagem de ano numa cidade europeia. É a primeira vez que Portugal é o país escolhido para a realização do encontro, e esperam-se cerca de 40 mil pessoas, na sua grande maioria jovens, que todos os dias se juntarão no pavilhão da FIL, no Parque das Nações, para duas orações comunitárias. Dito assim, a frio, parece mais um encontro de evangélicos entusiasmados ou de seitas milagreiras. Mas nada disso tem a ver com o espírito de Taizé, que, aliás, sempre se recusou a fundar qualquer tipo de movimento. Não há, nem pode haver, «grupos de Taizé» a comunidade limita-se a acolher gente e a convidar os participantes, aqui ou em França, a uma semana de recolhimento e de oração. Depois, cada um vai à sua vida.
Visitei várias vezes Taizé na minha adolescência e continuo a acreditar que, se Jesus voltasse à Terra e precisasse de recuperar fôlego das pregações e das conversões, a aldeia francesa seria o lugar que escolheria para reclinar a sua cabeça. Colocando-se à margem de todos os cismas que durante séculos dividiram a Igreja, a comunidade de Taizé não é católica, nem ortodoxa, nem protestante - é apenas cristã. A sua teologia entronca nos elementos fundamentais da doutrina de Jesus, não havendo espaço para o acessório as celebrações limitam-se a uma série de cânticos muito simples e repetitivos, à proclamação da palavra e, quando muito, à partilha do pão. De fora fica toda a ganga dogmática que atafulha o pensamento dos crentes e que só serviu ao longo dos séculos para separar e estigmatizar.
Em Taizé não há imposição - há apenas contemplação. A Bíblia não é uma bateria de preceitos e de normas de comportamento, mas uma forma de reflectir sobre o mistério da existência e de procurar conforto na possibilidade de um outro mundo. A dimensão estética da crença é muito valorizada, seja através da música, extremamente rica na sua simplicidade, seja através da decoração dos espaços de celebração, enaltecendo o papel da arte na aproximação do Homem a Deus.
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