A interrupção da normalidade de um ciclo político e cinco meses atípicos de governação transformaram as eleições legislativas de Fevereiro num referendo a Pedro Santana Lopes. Mais do que a escolha entre programas eleitorais ou a afirmação pelo voto de inclinações ideológicas, os portugueses serão confrontados nas urnas com uma pergunta - confia neste homem para primeiro-ministro? Este homem é Pedro Santana Lopes e a verdade é que essa questão persegue o próprio, como uma sombra, desde que assumiu a ambição e a predestinação para o cargo.
A julgar pela opinião publicada e pelas sondagens, o destino do ainda primeiro-ministro parece inevitável - uma súbita saída de cena após cinco meses de fama sem proveito.
É verdade que cinco meses não fazem um primeiro-ministro, mas chegam e sobram para o desfazer. E é esse grau de devastação que o País referendará em Fevereiro. Não será, porém, por acaso que os inimigos internos do líder do PSD são cautelosos na expressão pública da aversão à figura e que os cenários de sucessão são discutidos no âmbito de uma espécie de sociedade secreta. Há, no que respeita a Pedro Santana Lopes, uma convicção que subordina todas as outras o homem é, e não deixou de ser, imprevisível. Não vira a cara à luta , é um sobrevivente - não se aflige com as derrotas nem as teme.
Em 1996, também Cavaco Silva perdeu as presidenciais numa espécie de referendo à questão «Aceita este homem por mais cinco anos?». Dez anos depois, Cavaco é um referencial de credibilidade para o País. Há um mundo de diferenças entre os dois políticos. Mas uma é óbvia Cavaco aceitou uma longa travessia do deserto; Santana resistirá a sair de palco. Mas estes «referendos», que vivem de emoções circunstanciais e que envolvem apenas um candidato, proporcionam sempre vitórias ou derrotas incompletas. E permitem regressos. Chegou agora o tempo de Cavaco. Se perder, chegará o tempo de Santana?
MIGUEL COUTINHO
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