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A clara nocturnidade de uma poesia alada

por

a Na Marques Gastão

Arquivo DN-Leonardo Negrão  

Uma sede de absoluto, a vida como um contínuo exercitar da morte, a memória e a infância, a saudade e a solidão, o mistério e a dúvida, o despojamento e a contemplação, o espaço e a paisagem, sobretudo de eco ribatejano, são, em síntese, os temas que percorrem a poesia de justa cadência musical e tendência romântico-simbolista de Natércia Freire. A poetisa de Liberta em Pedra, contista, crítica literária e tradutora, que dirigiu durante 20 anos, até 1974, com rigor e isenção, o suplemento literário Artes e Letras, do Diário de Notícias, morreu, ontem, em Lisboa, aos 85 anos. Havia nascido em Benavente.

Para Natércia Freire, a poesia era arte que vê. Algo para lá do visível, escrita lunar com asas, estranheza que dá felicidade, inquietação e espaço nostálgico, mas uno, aberto à transfiguração visionária. A poetisa começa por exprimir-se pela mão de uma de suas irmãs, a romancista e ensaísta Maria da Graça Freire, autora de A Primeira Viagem - Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências, na década de 60 -, a quem pediu, um dia, que a ensinasse a escrever «Ela falou-me na luz das ruas e surgiu um poema: "Ó cabecinhas de luz que andais dispersas nas ruas."» Mais tarde, por influência de José Osório de Oliveira, abandonará a música para se dedicar totalmente à escrita.

Caminho este, o das palavras, atravessado pelo irreal, aberto a uma clara nocturnidade de vertente intimista a que tão bem assenta a definição da sua «irmã» brasileira Cecília Meireles, como o foi, aliás, Clarice Lispector «A poesia é grito, mas transfigurado.» Não se trata de uma escrita de cristalização retórica, a de Natércia Freire, mergulhada na dor de uma intensa alegria. Dir-se-ia uma missão a cumprir, uma vocação de silêncio, revelando-se nos fragmentos de um corpo doloroso e incompleto, febril e, no entanto, generoso: «Nada que tive era meu/e o corpo não quero eu./Podia servir de embalo,/mas serve de sepultura./Cemitério de asas finas,/tange e plange aladas crinas,/canto de praias sulinas/de infinitas amarguras...» (Poema)

Atenta à riqueza do léxico e a uma beleza não só da forma, mas da essência, a poesia de Natércia abre-se a uma musicalidade em consonância com um salto do psicológico para o metafísico, salto plenamente amadurecido e enredado numa existência supra-sensível e delicada de tipo místico «Mas às vezes há um desejo de solidão, de uma solidão breve. De morte. Falamos, os que se encontram, uma língua de tempos derradeiros.» (Entrevista ao DNa)

Quem conheceu Natércia Freire, conheceu a sua poesia, água serena na sua rebeldia e inconformação; conheceu um ser generoso, tão misterioso como atento ao Outro, tão justo como grato, na eterna meditação sobre a morte (também, a dos vivos) que foi a sua existência. Não alheada da experiência social, reflectida em poemas como Guerra ou Agiotas, a sua Obra Poética (editada pela Imprensa Nacional), na qual não incluiu os três primeiros livros, vive na «sombra de uma outra luz», espécie de presença na ausência «Distância de eu ser distância/A um ponto/Que em mim alastra.» (Liberta em Pedra). A Assírio publicaria, entretanto, em 2001, uma justa antologia, com capa de Ilda David, e incluindo inéditos.


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