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Ensaios traçam perfil de dois poetas contemporâneos

por

maria augusta silva  

Dois ensaios de referência, Poética do Sensível, de José Fernando Castro Branco, sobre a poesia de Albano Martins, e Interfaces do Olhar, da poeta e ensaísta Ana Hatherly, acabam de ser lançados pela Roma Editora. As obras inscrevem-se na colecção Faces de Vénus, coordenada pela Prof.ª Annabela Rita, doutorada em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.

O encontro de apresentação dos ensaios decorreu no Instituto Camões, em Lisboa. Fernando J. B. Martinho sublinhou o «trabalho notável» que nasce da tese de mestrado de José Fernando Castro Branco, defendida, na Faculdade de Letras do Porto, em torno do que o próprio autor do ensaio define como a «coerência estético-literária que caracteriza, de ponta a ponta, a poesia de Albano Martins». Poética do Sensível inclui, ainda, uma antologia pessoal de Albano Martins, que abre com Secura Verde, versos do seu primeiro livro: «É verde esta secura, como verde / a raiz duma planta que secou. / Posso ter o corpo aberto / e não mostrar o que sou.» Outros poemas revelam-nos o percurso poético do autor de obras como Escrito a Vermelho e, mais recentemente, Frágeis São as Palavras (Asa). Um poeta que à intensidade do significante alia o despojamento. Mais poemas de Albano Martins passam pela antologia, dois dedicados a José Bento e Luís Amaro (também eles nomes maiores da cultura portuguesa). Esta parte encerra com excertos de Três Poemas de Amor Seguidos de Livro Quarto, editado pela Quasi. O poeta assim diz: «Ao contrário das árvores, / dizes, / é o amor. Mais altas / do que os ramos são / as raízes. »

A colectânea de ensaios Interfaces do Olhar foi, por seu turno, apresentada por Casimiro de Brito. Ao enunciar a obra de Ana Hatherly, fala da «mão que escreve» e prolonga «a vivência do corpo autoral», e abre «o destino da palavra essencial», esse em que participa igualmente o leitor. Uma colectânea em que é traçado o perfil da poeta, ensaísta e investigadora. Organizada em moldes diferentes, opta por uma antologia crítica que engloba textos de vários autores sobre a criatividade multifacetada da escritora e pintora. Desse núcleo constam trabalhos de Ana Gabriela Macedo, Ana Marques Gastão, Casimiro de Brito, Elfriede Engelmayer, Fernando J. B. Martinho, Maria João Fernandes, Pedro Sena-Lino, Rogério Barbosa da Silva e Ruth Rosengarten. A ponta final de Interfaces do Olhar integra uma antologia poética de Ana Hatherly, abrindo com o poema História da Menina Louca: «Procuraram toda a casa, toda a terra, / Ninguém a achava. / Ela estava no telhado atrás da chaminé. / Olhava as estrelas e cantava. / Estava tão feliz e sossegada! / Olhava as estrelas e cantava. // Meu Deus, está louca! / Vamos levá-la. // Estava tão feliz! /Olhava as estrelas e cantava...». Poemas visuais de Ana Hatherly completam Interfaces do Olhar, uma outra caligrafia da palavra inovadora, sábia e vital da autora d'O Pavão Negro (Assírio & Alvim) oude Fibrilações, que a Quimera editou este ano.


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