P odemos bem dizer que as últimas eleições americanas voltaram a dividir a América em duas partes: a nação dos cinquenta-cinquenta, a América da religião e do liberalismo, do Norte e do Sul, dos estados e do federalismo, de Washington e do movimento libertário. Mas o retrato das duas Américas não é o aspecto mais importante da reeleição de George W. Bush. A política americana está sempre em mutação. Em 1960, Nixon não tinha consigo o Sul dos Estados Unidos nem os democratas dominavam como hoje a costa oeste. O que mais impressiona nestas eleições e na inequívoca vitória do partido republicano é que, numa América previsivelmente dividida, a maioria do país é exactamente tão conservadora como parece, sendo o conservadorismo americano a ideologia mais poderosa e bem-sucedida que a História alguma vez conheceu.
Em The Right Nation, John Micklethwait e Adrian Wooldridge, dois jornalistas do Economist, dão--nos um lúcido retrato do que é este conservadorismo e as razões do seu sucesso. Quem quiser compreender a política americana de hoje e a folgada vitória de Bush nas presidenciais deve ler este livro. Curiosamente, a tese de The Right Nation, de que a diferença americana é uma diferença conservadora, é totalmente oposta a outro livro publicado há um ano nos Estados Unidos: The Emerging Democratic Majority, da autoria dedois cientistas políticos, Ruy Teixeira (não confundir com o juiz) e John Juddis. Em vez de um país conservador, Teixeira e Juddis pretendem que o cenário político americano será em breve preenchido por uma maioria emergente de democratas, composta pelo voto das minorias, latinos e mulheres. Em vez de um país encostado à direita, a América deslocar-se-á para um centrismo progressista, oriundo das grandes cidades e dos diferentes modos de vida da sociedade pós-industrial.
A vitória de Bush desfez completamente esta tese democrata e mostrou a força da América conservadora. Na América, o conservadorismo é muito mais que um movimento: é uma ideologia de poder optimista, cheia de contradições mas com uma espantosa capacidade de influência e difusão. Os conservadores americanos são evangélicos que não separam o Estado da religião, nacionalistas para quem a segurança nacional não tem preço, proprietários hostis ao governo federal e ao dirigismo público na saúde ou na educação, populistas defensores da família e de outros valores tradicionais, acérrimos militantes de direitos (como o porte de arma), empresários que não querem pagar impostos e recusam qualquer vestígio de estado social na América. Tudo isto triunfou nestas eleições porque Bush e o seu director de campanha, Karl Rove, conhecem como ninguém esta América profunda (do Midwest, dos subúrbios, dos estados protestantes do interior) com a qual se identificam e que souberam também personificar. Apesar do seu perfil moderado e centrista, Kerry nunca conseguiu ameaçar esta maioria política. Não chegava ser um anti-Bush. Numa América em guerra e carente de liderança, os americanos nunca hesitariam entre a liderança simples de Bush e o currículo hesitante do candidato democrata.
Vendo as coisas com frieza, Bush não merecia a reeleição. Não foi um bom Presidente para a economia, para o défice, para a luta contra o terrorismo. A guerra do Iraque não foi conduzida com competência e lisura. E não creio que a sua recondução no cargo seja positiva para a pacificação da desunida sociedade americana. Pelo menos, essa pacificação será impossível se Bush se servir do segundo mandato para concretizar uma agenda conservadora, revendo a Constituição e reforçando a ala republicana do Supremo Tribunal.
Finalmente, a vitória de Bush mostrou que a esquerda americana e a esquerda europeia não sabem lidar com este Presidente, porque, precisamente, não sabem lidar com a diferença. A esquerda europeia quis votar nas eleições americanas: na realidade, até votou, mas contra Kerry. A intolerância bem-pensante de todos os que abominam Bush ajudou a mobilizar alguns milhões de votantes no Presidente americano. Como avisaram Micklethwait e Wooldridge bem antes das eleições, a demonização de Bush contribui para consolidar a sua base de apoio. Para derrotar Bush e o conservadorismo americano era preciso que os europeus tivessem aprendido a aceitar Bush e a América que ele representa. Mas a esquerda continua a ver na América conservadora, na nação Bush, um absurdo primivitismo. Conhece o teu inimigo, dizia o camarada Mao. E já agora, antes, dá-lhe alguma importância.
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