por
maria teresa horta
Quando um livro traz consigo a estrela da sorte, envolvendo os leitores e os críticos num mesmo abraço de entusiasmo, como aconteceu com Contos Eróticos do Velho Testamento de Deana Barroqueiro, é muito difícil para o seu autor conseguir soltar-se desse peso que tolhe, para voltar a partir de um modo tão solto, tão espontâneo e livre como antes, em direcção da aventura incomensurável da escrita. Assim como não é igualmente fácil para os leitores voltarem a encontrar no novo trabalho a satisfação anteriormente experimentada. Raramente resistindo à tentação de os comparar, partindo para o novo livro com desconfiança.
Tal como aconteceu comigo frente a Novos Contos Eróticos Do Velho Testamento, temendo a repetição, a recorrência ao anterior imaginário e abordagem ficcional, o abuso da efabulação, o embuste da roupagem dos temas. Só que Deana Barroqueiro, com um talento e uma maturidade invulgares, conseguiu contornar as dificuldades e ressurgir com uma escrita ainda mais bela e criativa: ousando a ousadia mas também a contenção, usando o arrebatamento mas também a razão, teimando no fulgor mas também na sombra. Atormentando-se no mel, para chegar à crítica social.
Sem nunca se esquecer de reencontrar as pontes, de manter a necessária ligação ao traço anterior, carnal e feminino, já que estes contos trazem consigo a visão da mulher, olhar que tanto tem faltado à visitação do universo da Bíblia: Velho Testamento moralista, repleto de anciãos e patriarcas preguiçosos, libidinosos e lascivos, de brutamontes ignorantes e violadores, convocados por um Deus irado frente à própria imagem, segundo a qual teria criado o homem, de quem afinal não gosta e castiga. E é no enredamento deste dilema que se fazem os dez textos presentes, que, tal como os do anterior volume irão formar, no seu conjunto, um todo literário uno. Falando de Noé e de Jacob, de Isaac e de Sansão, de Asmodeu e dos circuncisos, de Labão e de Abraão, arrancando-os do seu pedestal de heróis divinos, com uma habilidosa crueldade implacável.
Aqui terminam as idealizações masculinas, e começa a examinar-se de forma diversa as figuras bíblicas femininas: Sara e Ester, Lia e Raquel, Jael e Pesechet, Dalila e Susana, mostradas como seres secundários, servidoras de seus senhores, campos de fertilidade e sítio privilegiado do prazer. Personagens de uma intocável história sagrada, construídas a partir de um imaginário machista, que mais não faz do que iludir a importância das suas vidas, pois é nelas que tudo começa e que tudo acaba, como mostram os contos de Deana Barroqueiro. Dando ela a ver através de uma escrita tecida com sensualidades de cintilações eróticas, o pacto com a natureza, a urdidura da inteligência e da sensibilidade destas prisioneiras de um destino nefasto, divididas entre o ardil e o rancor, o hábito e a determinação, a passividade e a rebeldia. Sublinhando a ardência jubilosa de uma sexualidade não domesticável, que aos homens sempre desagradou. Desagrado esse que, segundo a ficcionista, teria feito Jacob perguntar-se: «se não seria uma boa solução estender e excisão do sexo a todas as mulheres, para castrar de vez a ávida carnalidade e insaciável fome de prazer que pareciam fazer parte da índole das fêmeas».
Mas Novos Contos Eróticos do Velho Testamento é ainda ou sobretudo a beleza trabalhada, cinzelada com um bom gosto literário raro na ficção portuguesa. Histórias de onde se desprende um mistério nacarado e transbordante, que a si mesmo impõe ganhar o traço feminino da criatividade. Assim como o encanto mágico das mil e uma camélias do corpo da escrita.
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