por
ANA TOMÁS RIBEIRO
Penhoras aos milhares. Os três D, como lhe chamam os solicitadores de execução, doença, desemprego e divórcio, explicam muitas das situações de rotura de famílias endividadas. Mas não justificam a maioria dos casos de penhoras, aos milhares, por dívidas de privados a privados. A maior parte tem por base o não pagamento a operadoras de telecomunicações, a empresas de crédito ao consumo e aos bancos e resultam muitas vezes de passos mal dados, além dos limites das capacidades financeiras. E ainda há os devedores profissionais. Recuperar o que todos devem é que se tornou tarefa cada vez mais difícil.
Quase sempre os devedores ignoram as cartas de aviso
Faltam só duas horas para Carla ir buscar os dois filhos à escola e ainda não sabe como lhes vai contar que naquele dia já não dormirão numa grande casa com jardim, mas sim num pequeno apartamento de três assoalhadas, a poucas dezenas de quilómetros dali. "Nem quero pensar como o vou fazer. Não tive coragem para lhes dizer antes. E hoje tem mesmo de ser. Julgo que o pequenino, com três anos, ainda não tem idade para perceber bem o que se passa, por isso vai ser mais fácil. O mais velho, como já tem 11 anos, espero que entenda e não faça muitas perguntas", desabafa, virando a cara para o lado para esconder as lágrimas. Naquela tarde, quente e iluminada pelo sol, do mês de Fevereiro, Carla não conseguia ver luz ao fundo do túnel da sua vida. Tudo lhe parecia cinzento. Uma boa parte daquilo com que sonhou durante anos e veio a alcançar com esforço fugia-lhe agora por entre os dedos com uma rapidez nunca esperada. Não por doença, desemprego ou divórcio, as três situações que os solicitadores de execução chamam de três D, motivos pelos quais muitas famílias acabam com um processo de penhora em tribunal.
Carla é casada, tem saúde e o marido, também. Além disso, tem um emprego estável como secretária na ANA - Aeroportos e Navegação. A penhora da sua casa - executada uma semana antes daquele dia -, onde o casal vivia há seis anos, resulta de uma situação de endividamento no limite, que os fez entrar em rotura mal se iniciou a escalada das taxas de juro, em 2007. O caso é apenas um dos 207 mil processos executivos de penhoras por dívidas de privados a privados, que foram distribuídos pelos solicitadores de execução portugueses em 2008, tal como o DN divulgou na sua edição de quarta-feira.
Esta história com final triste começa em 2003, o ano em que o casal decide mudar-se de um apartamento para a vivenda com rés-do-chão, primeiro andar, jardim e garagem, com uma área total coberta de quase 300 metros quadrados, na Quinta do Conde, concelho de Sesimbra. Na altura, Carla já ganhava um salário próximo dos 1200 euros, mas o marido, tal como hoje, recebia o ordenado mínimo nacional. Ainda deviam muito do empréstimo da anterior casa, por isso, o valor da sua venda não chegou para a pagar ao banco.
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