por
Mário Soares
1. O Presidente Barack Obama continua a não perder tempo.Está a dar passos consequentes no início da "nova era", que anunciou na cerimónia da sua posse. Subscreveu uma lei que garante a igualdade de género: "A trabalho igual, igual salário." Deu um grande impulso aos sindicatos, recebendo- -os na Casa Branca e restabelecendo direitos perdidos. E, obviamente, começa a ter oposições, aliás esperadas. Os republicanos, apesar de elegerem um novo líder também afro-americano - o que é significativo -, tiveram os primeiros choques contra o Presidente, negando-se o Senado a aprovar o plano de recuperação da crise que Obama apresentou ao Congresso. Cool, como já se percebeu que é - ou seja: frio, pragmático, prudente, calmo e moderado -, não se deu por vencido e continuou a negociar, aceitando fazer pequenas emendas no seu plano. Do meu ponto de vista, acho que vai conseguir fazer passar o plano no Congresso.
Entretanto, chamou a atenção pública para o escândalo de como foram gastos os dinheiros concedidos à banca - como o City Bank - e a grandes empresas, através do plano Paulson, ainda no tempo de Bush. Foram, em boa parte, gastos em prémios dados aos gestores das empresas, que os receberam e em despesas sumptuárias, como na compra de um avião privado, caríssimo, para uso próprio dos administradores. Como disse Obama: "Os executivos dos grandes bancos repartiram entre si 14 250 milhões do plano da crise." E acrescentou: "Uma irresponsabilidade e uma vergonha!" Além disso, anunciou um controlo do Estado para que tudo seja transparente e publicamente conhecido, uma vez que o dinheiro provém dos contribuintes...
Na Europa, em geral, tem-se aplicado a mesma receita. E também não está a correr bem. É desconhecido, por enquanto, para onde foram - e sobretudo como foram gastos - os dinheiros expendidos para conter a crise, pelos Estados nacionais. Perante o exemplo americano, é natural que os políticos europeus dêem a conhecer como foi gasto o dinheiro e se não foi também, como se desconfia, para beneficiar - sem qualquer controlo - os mesmos gestores que continuam a conservar os seus lugares, apesar de serem os responsáveis principais do desastre. Em perfeita impunidade, até agora.
Portugal, infelizmente, parece não ter sido excepção a essa regra geral. "Mudar o menos possível, para que tudo fique na mesma..." Mas não é possível. Foi a "mão invisível", a auto-regulação dos mercados, que conduziu ao desastre! Quando os ouvimos falar - os inquiridos, arguidos ou apenas suspeitos - com o à-vontade e a desfaçatez com que o fazem, ficamos com a convicção de que ainda não aprenderam nada com a crise... E o pior é que o tempo de mudança urge.
2. Davos (o Fórum Económico Mundial) e o Fórum Social Mundial, que se reuniu no Brasil, ignoraram-se soberanamente.E, no entanto, encontram-se perante a mesma impotência, ao mesmo tempo, em continentes diferentes, no que se refere a previsões ou a medidas práticas quanto ao futuro. Davos, na estância de Inverno de grande luxo da Suíça, que este ano esteve quase deserta de economistas, apanhados, sem a terem previsto, pela maior e mais complexa crise de sempre e perante o caos, sem resposta, que todos os dias parece reforçar-se. Contudo, não faltaram políticos ilustres, como o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, Bill Clinton, que confessou ser "grande fã de Obama", Vladimir Putin, Wen Jiahao, primeiros-ministros da Rússia e da China, Blair, em manifesta decadência, e Recep Erdogan, primeiro-ministro da Turquia, que se irritou especialmente com o discurso de Shimon Peres e abandonou, claramente zangado, a reunião. Só por esse facto, parece ter-se tornado um herói do mundo muçulmano! O conflito israelo-palestiniano sobrepôs-se assim às preocupações quanto à crise global financeiro-económica. Ao menos, todos reconheceram o mito inaceitável da mão invisível que auto-regularia - erro fatal - o mercado global...
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