por
SUSETE FRANCISCO
Presidência. Cavaco Silva manteve ontem o silêncio sobre o caso que envolve o primeiro-ministro, mas deixou um sinal da importância que está a dar ao assunto
O Presidente da República qualificou ontem o caso Freeport como um "assunto de Estado", invocando esta condição para se escusar a comentários sobre o tema. "Hoje [ontem] estamos aqui num torneio de golfe, não se tratam de assuntos de Estado, podemos assim dizer", afirmou Cavaco Silva, depois de ter assistido ao início da Taça Portugal Solidário 2009, na Quinta da Marinha, em Cascais.
Palavras que marcam uma diferença com os restantes agentes políticos, que até agora têm remetido o caso Freeport para o estrito domínio da Justiça. O que significa então o qualificativo do chefe do Estado? Manuel Meirinho, especialista em Ciência Política e docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) explica assim a expressão do Presidente: "Isto não é um assunto de Estado, mas do Estado. Pela sensibilidade que implica, pelos enormes efeitos que pode ter no sistema político." Um sinal de atenção e da importância que Belém dá a um assunto que "afecta a credibilidade dos agentes políticos e do próprio Estado, que pode chegar a um ponto de grande fragilidade." Considerando este factor, o investigador admite outra hipótese de leitura - será uma forma de dizer que este caso "não diz respeito só à Justiça". Um dado é certo: este é um caso que também o Presidente da República tem de gerir "com pinças", face aos cenários que pode vir a implicar.
O politólogo António Costa Pinto entende que a expressão foi usada somente com a intenção de justificar o facto de Cavaco não se pronunciar sobre o tema. "E julgo que vai-se manter assim a curto prazo, à margem, numa posição muito acima. É do interesse do Presidente não entrar em qualquer debate nesta fase", acrescenta, sublinhando que "se este caso continuar a fragilizar o primeiro- -ministro é óbvio que o Presidente da República cresce na sua capacidade de manobra política".
Ontem, face a novos desenvolvimentos no caso Freeport, José Sócrates reiterou: "Estou preparado para resistir a todas as ignomínias desta campanha, que fazem contra mim e contra a minha família." Já o socialista Manuel Alegre referiu-se pela primeira vez ao caso para criticar a lentidão da Justiça. "Parece que em Portugal há dificuldade em investigar, as coisas demoram muito tempo e depois ninguém é acusado e ninguém é inocentado", referiu o histórico socialista, manifestando o desejo de que "as coisas sejam esclarecidas" - "É muito ingrato para uma pessoa estar sujeito a ver o seu nome na praça pública." |
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