por
João Miranda
Investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com
D.José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, defendeu que os casamentos entre mulheres católicas e muçulmanos podem ser uma fonte de sarilhos. Com estas declarações, D. José Policarpo fez uma crítica implícita ao estatuto da mulher no mundo muçulmano, estatuto esse que não seria facilmente aceite por uma mulher de cultura católica. Estas palavras geraram uma onda de críticas. D. José Policarpo foi acusado de fazer generalizações abusivas e de promover a discriminação dos muçulmanos.
A Amnistia Internacional pediu que D. José Policarpo fizesse uma retractação. A Amnistia considera que as declarações de D. José Policarpo fomentam a intolerância e atentam contra o espírito de fraternidade e paz. Existe uma infeliz ironia nesta posição da Amnistia Internacional. A Amnistia Internacional adquiriu a sua reputação por lutar pelos direitos humanos mais básicos. A Amnistia Internacional devia, por isso, ter como prioridade a luta contra a discriminação das mulheres muçulmanas. Mas, em vez disso, opta por tentar suprimir as críticas a essa discriminação. A Amnistia Internacional devia defender todos aqueles que, nos países muçulmanos, são perseguidos por criticarem a religião muçulmana. Mas, em vez disso, prefere criticar quem faz uma crítica certeira à religião muçulmana.
D. José Policarpo identificou correctamente uma das fontes de discriminação das mulheres no mundo muçulmano. Fez uma generalização? Claro que sim. Mas todas as pessoas inteligentes conhecem as vantagens e os limites das generalizações. As generalizações permitem chegar à essência do problema. Neste caso, a essência do problema é que os factores culturais e religiosos são a principal causa de discriminação das mulheres no mundo muçulmano. No entanto, as generalizações não se aplicam a todos os casos particulares, mas como nenhum de nós é estúpido, todos sabemos que não se aplicam. D. José Policarpo não terá sido intolerante? Dificilmente. A crítica cultural e religiosa é parte integrante de uma sociedade livre e tolerante. Tolerar implica também tolerar a crítica. |
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