por
Vasco Graça Moura
Escritor
Não foi objecto de grande destaque recapitulativo, nos habituais balanços de fim de ano, o gravíssimo atentado contra a nossa língua que representou a ratificação do chamado Acordo Ortográfico, uma barbaridade cozinhada há 20 anos entre Portugal e o Brasil, nas costas dos PALOP. E, todavia, ainda a Assembleia da República não se pronunciou sobre a petição que lhe foi apresentada e já se aproxima das 100 000 (cem mil) o número de assinaturas nela recolhidas...
Alguns órgãos de comunicação social entraram em alvoroço moderado com a notícia de que no Brasil se estaria já a aplicar o Acordo Ortográfico a partir deste ano de 2009. Não vejo razão para esse alvoroço. As modificações que as bases do acordo introduzem na grafia brasileira são poucas ou nenhumas. Provavelmente nem os próprios brasileiros darão por elas. Ainda há dias uma personalidade brasileira declarava nunca ter usado o trema naquilo que escrevia...
Acontece que os mesmos órgãos de comunicação social não se interrogam suficientemente sobre as consequências de não ter havido entretanto qualquer ratificação do Acordo Ortográfico em Angola, ou em Moçambique ou na Guiné-Bissau. Nem consta que se tenham preocupado em esclarecer junto das autoridades respectivas quais são as intenções oficiais.
Quanto ao vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa, que deveria anteceder a entrada em vigor do Acordo no espaço da língua, ninguém se questiona quanto à dimensão científica e técnica de um vocabulário que continua por elaborar e é duvidoso que alguma vez venha a sê-lo. E parece que ninguém sabe com clareza quem é que intervém na sua feitura.
Há poucos meses, também tinha sido alardeado com grande pompa que a grafia das actas das reuniões da CPLP e de outras manifestações oficiais luso- -brasileiras já iria ter lugar segundo as normas do famigerado documento, o que, entre nós, seria para já manifestamente ilegal. Mas do facto de, posteriormente, nenhum jornal ter noticiado que assim tenha sido, talvez possa deduzir-se terem ocorrido dificuldades diplomáticas, protocolares ou outras na gestão de tão confrangedores desígnios transatlânticos.
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