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sociedade

Poder e miséria numa praça de contrastes

por

BRUNO ABREU

GONÇALO VILLAVERDE  

Pobreza. Dezenas de mendigos dormem ao relento no Terreiro do Paço

"Já é meia-noite? A carrinha do leite deve estar a chegar", exclama Delfim, um idoso que afirma ter-lhe sido roubada a casa por um advogado "que vendeu o terreno a uma agência de viagens". Esta é uma das muitas histórias de vida dos sem-abrigo que "habitam" na Praça do Comércio. Centro do poder político em Portugal desde o tempo de D. Manuel I, esta emblemática praça lisboeta espelha bem a indiferença para com quem só pede um tecto para viver.

Carrinhas: a principal razão que leva os sem-abrigo ao Terreiro do Paço. Chegam à noite e trazem bens essenciais : "roupa, calçado, alimentos", enumera João António, outro dos "inquilinos" das arcadas do Terreiro do Paço. Antigo emigrante na Suíça, já perdeu a conta aos anos que vive na rua: "Não sei há quanto tempo estou na rua, não tenho datas." A sobrevivência depende da ajuda dada pelas instituições que ali vão distribuir comida e roupa, mas também da esmola que os transeuntes lhe dão. "Felizmente as pessoas ajudam-me", afirma.

Entretanto aparece João Silvério, da Liga dos Jovens de Nossa Senhora, oferecendo broas castelares e figos aos sem-abrigo. Dirige-se a um deles: "Figo?" "Não, o meu nome é Sérgio, se fosse o Figo estava no Inter", responde bem-disposto.

Sérgio, 37 anos, diz que não quer esmolas e prefere que lhe paguem "um galão e um bolo", porque se pede dinheiro "pensam logo que é para a droga". O seu maior desejo é que o ajudem para poder ser operado a duas hérnias que o "impedem de fazer esforços" e não lhe permitem ter uma vida normal: "Quero tirar a carta, ter o meu carro, a minha casa", mas para já é algo que se tem revelado difícil. "Já pedi ajuda nos hospitais, na câmara municipal, na Santa Casa [da Misericórdia] e nada, ninguém me ajuda. Estou a ver que tenho de ir à Fátima Lopes ." Vítima de maus-tratos desde criança, diz que não volta a casa dos pais enquanto eles lá estiverem: "Estou na rua há sete anos, mas é como se não tivesse casa há mais de 20."


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