por
ANA TOMÁS RIBEIRO (Texto)
RODRIGO CABRITA (Foto)
Bruno, Elisabete e Sofia passaram 2008 no desemprego. Nenhum recebe subsídio. Os primeiros acabaram o ano a pedir ajuda à Porta Amiga da AMI. Para todos, a prioridade para 2009 é arranjar emprego. Sofia, desiludida com o País, parte este mês para a Suíça, em busca de uma carreira como enfermeira. A família Duarte, com cinco filhas ainda em casa, já não consegue poupar mais. A alternativa é aumentar o rendimento, com mais trabalho. Miguel, Luísa e Luís estão tranquilos. Têm empregos seguros, salários razoáveis e poupanças. Vidas em tempos de crise, mas que dificilmente se cruzarão
Por detrás de um sorriso simpático, Bruno procura esconder o olhar triste e os gestos nervosos. Ao princípio é reservado, mas acaba por desenrolar o discurso, aninhando a cabeça entre as golas do blusão negro, e expor a sua revolta. Com 29 anos, já conheceu algumas facetas complicadas da vida. Mas 2008 foi o ano mais amargo, perdeu a mãe e ficou sem emprego. Vive num bairro social de Marvila, em Lisboa. O seu mundo, tal como os sonhos, é cada vez mais limitado.
Bruno passa os dias entre o apartamento do pai, a pizaria/café do bairro e o autocarro que apanha para levar e trazer Íris, a filha de quatro anos, da escola. Tudo enquanto Elisabete, a mulher, também desempregada, frequenta o curso de formação profissional para trazer mais dinheiro para casa e obter a carteira profissional de cabeleireira. Vivem com cerca de 400 euros por mês, 250 de rendimento mínimo de inserção, mais 113 do curso de formação da Elisabete e alguns trocos, que ela vai conseguindo com os trabalhos de costura e os penteados que faz às vizinhas do bairro. Se não fossem as ajudas do pai de Bruno, pagando as despesas da casa, renda, gás, luz e água, dificilmente sobreviveriam à crise. "O que vale é que já estávamos habituados a viver com tão pouco. Assim, não sentimos tanto a diferença", comenta Elisabete. Para ela, as dificuldades são tantas que só podem ajudar a reforçar a relação do casal. É a vantagem no meio da crise. Positiva e corajosa, luta para combater o desânimo de Bruno, receando que ele se entregue à desilusão. Por isso, "em vez de lhe passar com a mão pela cabeça, bato-lhe", diz num tom engraçado. "Eu desisti um pouco", admite Bruno, "podemos estar a idealizar um futuro. Mas às vezes perguntamo-nos para quê sonhar"?
Antes de ficarem no desemprego, há um ano, cada um ganhava 400 euros, a trabalharem na mesma empresa de limpeza, era o dobro do que têm hoje. Nessa altura, recordam, como se estivessem a viver cada momento, "íamos jantar fora algumas vezes e à discoteca. A minha mãe ficava com a Íris", conta ele. "Outras vezes dávamos uma volta com a filha e comprávamos uma peça de roupa para ela ou para nós. Eu até ia ao cabeleireiro e à depilação. Fazia trinta por uma linha com tão pouco", relata Elisabete, enquanto troca um olhar cúmplice com Bruno, terminando com uma gargalhada. Um momento em que mostram a alegria da sua juventude. O outro é quando a pequena e simpática Íris chega à mesa com a tão desejada bola, oferecida por alguém que está no café. Os olhos negros de Íris quase saltam de contentamento.
O carro em que passeavam já foi vendido. Usam o do pai do Bruno apenas para irem às compras do mês ou em situações de urgência, como entrevistas de emprego marcadas à última da hora, porque o combustível está demasiado caro. Roupas também já não compram, vivem do que lhes dão. E saídas eliminaram por completo. Tudo é contado. "Para ter uns lençóis, se preciso, vou buscá-los à loja da dona Piedade, aqui no bairro, e vou pagando conforme posso", explica Elisabete, sempre com um sorriso alegre e olhar luminoso a contrastar com a tristeza de Bruno.
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