por
Fernanda Câncio
Jornalista - fernanda.m.cancio@dn.pt
Pedro Santana Lopes vai mesmo ser o candidato do PSD a Lisboa. Ao fim de um par de meses em que o próprio se anunciou disponível e a distrital de Lisboa o votou como candidato perante o silêncio ostensivo de Ferreira Leite, a improvável - inacreditável, não se desse o caso de ter sucedido - possibilidade passou a facto. Sobre o que isto diz de Santana (e do que Santana acha de si) mais o que diz de Ferreira Leite e do PSD começa a ser penoso falar, a não ser para concluir que todos estão a fazer, com grande competência e dedicação, o que é suposto para entregar, mais tarde ou mais cedo, a direcção do partido ao até agora ardilosamente sensato Passos Coelho.
Interessante mesmo é analisar a situação do ponto de vista do mais notório estratego de Ferreira Leite, o mais aparente e aparatoso inimigo dos populismos, das "facilidades" e das "incoerências" de que Santana é o lídimo representante. Não só por Pacheco Pereira (sim, é ele) ter sido, de forma despudorada, deixado cair pela sua dama, numa das mais cruéis traições da política portuguesa recente e em mais um falhanço da sua desastrada carreira partidária, como, sobretudo, por ter mostrado a sua incapacidade, como analista e comentador, de avaliar personalidades, prever percursos e pesar estratégias.
Como pôde Pacheco Pereira enganar-se assim a respeito de alguém que conhece há tantos anos, política e pessoalmente? É Manuela Ferreira Leite uma assim tão boa actriz ou foi Pacheco Pereira que, desejoso de acreditar ter enfim encontrado a criatura perfeita para dirigir o PSD por interposta pessoa, se enganou a si próprio? Certo é que, esgotado o seu prazo de utilidade como propagandista da "seriedade" e "credibilidade", o homem que mais incensou a rectidão da líder, o seu carácter tão tão superior ao dos outros candidatos, as suas tão extraordinárias experiência e visão políticas e lhe guardou a vitória numa terna fotografia de groupie, viu prescindidos os seus serviços. Como ri Menezes, como ri Santana do seu arqui-inimigo. Como ri Passos Coelho, a quem chamou "velho jovem", a quem acusou de ser nada mais que um aparelhista e reduziu a "uma imagem" (e que era a Ferreira Leite das "nobres rugas" nos close-ups da RTP senão uma imagem?).
O homem que ontem dizia, na Quadratura do Círculo da SIC Notícias, ponderar votar em Santarém em vez de em Lisboa para não ter de encarar a hipótese de pôr a cruz em Santana sofreu uma das maiores derrotas da sua dupla condição de político e comentador. Não seguramente a primeira - tem aliás o simbolismo trágico de um prémio de carreira. Um prémio ao contrário, como ao contrário estava o símbolo do PSD nos seus escritos anti-Menezes e anti-Santana. Ao virar de pernas para o ar a seta do partido nesses tempos que julgou esconjurar e que regressaram com o rosto da sua candidata, Pacheco Pereira estava afinal a fazer o auto-retrato. Mas triste triste é que a sua derrota não seja a de um justo que nunca quis sujar as mãos, de um romântico que nunca se fez à intriga. Triste é que ele tenha realmente querido e tentado, e seja mesmo e sobretudo falta de jeito.|
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