por
VALENTINA MARCELINO
NATACHA CARDOSO
Entrevista. Paulo Rodrigues, presidente da Associação Sindical dos Profissionais de Polícia da PSP (ASPP), o maior e mais moderado desta força de segurança, surpreende com críticas duras ao Governo e avisa que há oficiais a avaliar os polícias pelo número de multas e detenções que fazem
Que polícia criou este Governo?
Primeiro começou por nos tirar direitos fundamentais, como a assistência na doença, e obrigar-nos a pagar por um serviço pior. Depois envelheceu a polícia, aumentando a idade de reforma. Em 2004 a média de idade era 38,5 anos, agora vai nos 40. O mesmo partido que, com António Guterres, apostou forte na imagem e credibilidade da polícia agora faz o contrário. Para agravar tudo, prepara uma série de legislação, como o Estatuto, o Regulamento de Disciplina, entre outros, que mostram claramente a intenção de transformar a polícia numa força servilista, apostada em agradar às hierarquias, mesmo que em detrimento da nossa principal missão, que é a prevenção criminal. Ou seja, em duas palavras, o cenário é negro.
Pode concretizar esse retrato?
Há uma situação que está a preocupar-nos especialmente. Neste momento há oficiais a avaliar os polícias pelo número de multas ou detenções que fazem. Quanto mais multas melhor se é avaliado e mais se ganha. Isto é muito grave. A principal missão da polícia não é a prevenção? Afinal o melhor polícia é aquele que faz caça à multa durante uma hora e passa o resto do turno no café, ou aquele que está sempre presente e tem a sua área pacificada? Fazer detenções é fácil. Mas o que se ganha a longo prazo com isso? Só se for para agradar aos comandantes e apresentar estatísticas. Infelizmente, prevejo que qualquer avaliação que venha a ser feita dará sempre muita importância ao cumprimento de directivas. Os polícias vão preocupar-se mais com a progressão na carreira que em fazer um bom trabalho na segurança dos cidadãos.
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