por
Mário Soares
No fim da semana passada assistimos a um espectáculo mediático mundial de grande aparato, mas com escassos resultados: a Cimeira do G20, a que afinal compareceram 21 chefes de Estado ou de Governo, com a presença ainda do secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, do presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, do director-geral do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, do presidente do Fundo de Estabilidade Financeira, Mário Draghi, e do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso.
A primeira questão que se põe - mas que ninguém quis levantar, por razões diferentes - é a da sua oportunidade, mais que discutível. George Bush, o anfitrião, está de saída (a 20 de Janeiro de 2009) e, para além de já não contar quase nada, é um dos responsáveis principais por tudo o que de mau estamos a viver. A esmagadora maioria da opinião pública mundial - Ocidente e países emergentes ou assim, impropriamente, chamados - terá tendência a pensar que se trata de uma operação para branquear as responsabilidades de Busch e para lhe dar, em fim de mandato, uma imagem de menor opróbrio ou ignomínia... Será possível?
Obviamente que a situação de crise financeira e agora económica - para não falar no resto - que se está a generalizar e a aprofundar, cada dia mais, requer medidas urgentes e de fundo. Mas como as discutir a sério e pôr em marcha, se pela força das circunstâncias se deixa de fora o Presidente eleito dos Estados Unidos - que percebeu que não podia aceitar o convite, porque estava obviamente armadilhado - e que foi eleito por justamente se declarar disposto a mudar tudo e a iniciar uma época inteiramente nova no plano das políticas internas, que levaram à crise financeira e à recessão económica e no domínio das relações externas...
É, com efeito, chocante que os homens que acompanharam Bush no passado - e que ficaram marcados com o estigma da guerra do Iraque e de outras malfeitorias, como Berlusconi, Brown, Sarkozy e Durão Barroso, entre outros, os rostos de um passado recente que não deixou saudades - se queiram agora agarrar a Obama, sem largar Bush e, ao mesmo tempo, queiram resolver a crise gravíssima que o mundo está a viver, sem ter para tal uma ideia de conjunto e sabendo-se que eles foram, se não responsáveis, pelo menos cúmplices activos de Bush desde a invasão do Iraque...
Como era de esperar, não houve concertação possível entre eles e da Cimeira não saiu nada de muito concreto nem que jeito tenha. Houve boas intenções e algumas promessas retóricas. Reformas sim, claro, disseram em coro, mas não um novo Bretton Woods - que horror! -, quando é precisamente disso que se trata.
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