por
Jorge Fiel
Estou a divorciar-me. Após dez anos de separação, vou legalizar o fim patrimonial e fiscal de um casamento que se esgotou em 14 anos, durante os quais produziu dois filhos, muitas alegrias e algumas tristezas, até que ficou completamente desidratado, murchou e morreu. Comparo os 14 anos do meu casamento aos 18 anos que durou a minha ligação com o Expresso - sempre a trabalhar para a mesma empresa e com a mesma profissão. Trata-se de proezas irrepetíveis na próxima geração.
Nestes tempos de desvairadas mudanças de vidas e de costumes, já não vai haver mais lugar para relações duradouras, sejam elas afectivas ou laborais. O mundo acelerou, a oferta diversificou-se, o ritmo trepidante da mudança assassinou a estabilidade. Para sobreviver e triunfar, estamos condenados a viver num zapping permanente de adaptação a uma realidade em constante evolução. O emprego para a vida já não existe. A profissão para a vida está em vias de extinção. E o casamento para a vida naufragou nesta enxurrada. O casamento sempre foi um negócio, envolvendo activos tangíveis e intangíveis.
Os tangíveis sempre foram previamente regulados. À partida, fica definido o regime a aplicar em caso de quebra do contrato; partilha total dos bens, apenas dos adquiridos ou separação total. E são frequentes os acordos pré-nupciais que detalham as cláusulas penais a aplicar em caso de rompimento contratual.
O casamento desfaz-se quando uma das partes considera estar a ser prejudicada no deve e no haver de intangíveis desta empresa a dois (paixão, amor, afecto, conforto, solidariedade e prazer sexual) e acha que poderá ser mais lucrativo prosseguir a sua actividade a solo ou com um novo sócio/a. Numa sociedade livre, deve haver uma simetria entre a relação laboral e a matrimonial. Não faz sentido usar a lei para agrilhoar um empresário a um trabalhador que ele não quer manter. Também não faz sentido usar a lei para obrigar um cidadão a manter-se casado com alguém com quem ele não deseja continuar a partilhar a vida. O casamento é um negócio que se desenvolve nos incontroláveis domínios da paixão. Não é um imperativo moral, sagrado e incorruptível para seguidores de uma determinada ideologia ou religião - e apenas descartável para uma minoria de amorais marxistas e ateus.
Aos olhos da Igreja Católica, Sá Carneiro viveu em pecado com Snu. Paulo Portas, o líder do nosso partido mais conservador, é um solteirão. Haider, o líder da extrema-direita austríaca, era homossexual. Manuela Ferreira Leite, a líder do PSD, está separada. José Sócrates, o primeiro- -ministro e líder do moderado PS que recusou o casamento gay, é divorciado.
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