por
Ferreira Fernandes
Jornalista - ferreira.fernandes@dn.pt
A primeira vez que fui a Hong Kong admirei-me por nunca ter lido sobre uma imagem que me entrou pelos olhos dentro à primeira volta pela cidade: os andaimes eram feitos de bambu. Mesmo nos arranha-céus, longas hastes de bambu amarradas com lianas... Da primeira vez que fui aos Estados Unidos, para quem me perguntou pela impressão mais forte, eu tinha uma: nos restaurantes, a ausência de homens negros nos encontros familiares. Mesa típica de negros: a senhora velha (tia ou avó), a mãe e a filharada. Que era feito do pai negro americano?
Gosto de definir a minha profissão, jornalista, como a da caça ao pormenor que não o é. Está bem, concedo, não é assim muito relevante o bambu que trepa fachadas - mas é uma imagem impressionante. Já aquela ausência nas mesas dos restaurantes americanos aprendi que não era primeira impressão enganadora.
O tema "a ausência do pai na América negra" é glosado em livros e conferências. Em 1998, um jornal da Universidade de Chicago publicava um texto com o título "Onde estão os pais?" e esta primeira linha: "Mais de 70% das crianças afro-americanas são educadas pela mãe sozinha." Chicago, 1998, quem vivia ali era Barack Obama. Segundo alguma propaganda eleitoral, praticando actividades radicais. Uma delas seria com certeza: tentando revolucionar os bairros negros de South Chicago da irresponsabilidade dos pais.
No Verão de 2008, já candidato a presidente, Obama visitou uma igreja de South Chicago, vizinha ao lago Michigan. Assistência quase só de negros e um tema controverso - o tal. O comediante negro Bill Cosby (em Portugal conhecemo-lo de séries televisivas), também presente, teve ao longo de meses uma polémica tremenda com a comunidade negra por ter criticado a epidemia da falta do homem na família afro-americana. Obama disse: "Demasiados pais são MIA, demasiados pais são AWOL, faltando em demasiadas vidas e demasiadas casas." MIA e AWOL são termos militares que significam "desaparecido em combate" e "ausente sem autorização". É mesmo guerra que Obama quer fazer à praga.
Ele sabe do que fala. No já famoso anúncio de meia hora que fez passar esta semana nas televisões, Obama mostra-se numa foto pessoal e dramática: o seu pai, já olhando para outra vida, e ele, garoto, agarrado ao seu braço e olhando-o suplicante. Mas o pai de Obama partiu mesmo. No anúncio, ele mostra um homem a ler um conto ao filho que adormece. Na igreja, ele disse: "Qualquer parvo faz um filho mas o que faz um pai é fazer crescer um filho."
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