por
ALEXANDRA CARREIRA, Bruxelas
Realidade. Três casais falam da vida num país onde adopção e casamento "gay" são legais
São cinco da tarde, e Ulisses acaba de chegar da creche, ao colo da mãe. De uma das mães. Malin é a mãe que o trouxe nove meses junto a si. Na creche, foi a primeira coisa que disseram quando inscreveram o bebé de oito meses. "Se olharmos na cara, nos olhos, e lhes dissermos que somos lésbicas e o Ulisses é nosso filho, as pessoas portam-se de forma decente." Esta é, pelo menos, a realidade na Bélgica, onde casais do mesmo sexo podem casar-se e formar família.
Discriminação? Não sentem. É quase como uma não questão. "Acho que assumir a homossexualidade contribui muito para isso. É preciso dar a oportunidade às pessoas para que possam agir com respeito", explica Malin. "Às vezes, tenho a impressão de que pertenço a um programa de esclarecimento", continua Virginie, "quando se apercebem, as pessoas querem saber como fizemos para ter um filho, se é complicado."
Ambas sabem que, mais tarde, o filho vai ter de responder a perguntas, mas não antecipam problemas. Para Virginie, Ulisses é o segundo filho. O primeiro nasceu de uma relação heterossexual e tem hoje 23 anos. Não se lembra de quando nem como lhe explicou que era homossexual, mas conta que o filho mais velho "está sempre presente no Gay Pride, sendo heterossexual, e é um apoiante dos direitos gay". Para as duas mulheres, a melhor maneira de mudar mentalidades é assumir a realidade. "É preciso repetir a mensagem", diz Malin. "É preciso mais novelas, mais séries de TV que foquem este assunto", acrescenta Virginie. "Somos muito sortudas", reconhecem. A mudança em todos os outros países da Europa, reclamam-na como "urgente". "Repara, agora com o Ulisses é que não podemos esperar que a sociedade mude."
A fase das perguntas e respostas é coisa por que Maxime, de 15 anos, já passou muitas vezes. "A história é simples", diz com ar de quem a conta pela milésima vez, "vivo com a minha mãe e com a Élise, que casou com a minha mãe há dois anos". Estão juntas há seis e Élise está grávida, e, à semelhança de Malin, recorreu à inseminação artificial com dador anónimo. Andrea, mãe de Maxime, teve um primeiro casamento heterossexual e só "muito tarde" se apercebeu da sua homossexualidade. "Foi um pânico sem tamanho", conta. "A Maxime tinha cinco anos e a pergunta que martelava noite e dia na minha cabeça era só uma: como é que eu explico isto à minha filha?"
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