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230 índios do Mato Grosso invadiram ontem Veneza

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MANUELA PAIXÃO, em Veneza  

Veneza. Ao sexto dia do festival, começam já a desenhar-se preferências e apostas para a vitória final. Ontem, surgiu mais um candidato. 'BirdWatchers', do realizador ítalo-chileno Marco Bechis, denuncia a semiescravatura dos índios na floresta brasileira. Basead0 em factos reais e com personagens reais

Cineasta usou os índios como protagonistas

Os índios do Mato Grosso invadiram ontem Veneza. Eram 230 e ocuparam o ecrã da competição pelo ouro dirigidos pelo realizador Marco Bechise. BirdWatchers , o novo filme do cineasta ítalo-chileno Marco Bechis, crescido entre Bueno Aires e São Paulo, denuncia o drama vivido na floresta brasileira, onde nos últimos vinte anos o abate de árvores feito para abrir espaço ao cultivo de transgénicas lançou muitos dos índios para uma vida de semiescravatura e criou graves desajustes no quadro social e familiar do seu povo, como o demonstra o aumento significativo dos suicídios entre os mais jovens.

Baseado na história verídica de um grupo de índios Guarani-Kaiowa desalojados das suas terras, sem acesso aos tradicionais espaços de pesca e caça, obrigados a acampar no limite das terras que foram suas durante séculos e hoje ocupadas e legalmente por fazendeiros, o filme de Bechis traça um quadro de vida de gente obrigada a viver em condições desumanas nas plantações da cana-de-açúcar.

O filme invoca desde logo essas estatísticas negras oficiais, que denunciam o aumento de suicídios entre jovens - 517 nos últimos 20 anos. Um indicador de um quadro social de angústia que provoca a revolta do grupo que, guiado pelo líder feiticeiro da tribo, se instala nos confins de uma propriedade para reclamar a restituição das suas terras na floresta brasileira - o único país sul-americano que não reconhece os direitos dos índios à propriedade das terras. O suicídio de um jovem de 19 anos, que deixa a companheira grávida, desprovida de meios para se sustentar, é o gatilho de uma insurreição violentíssima.


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