por
João Miguel Tavares
Jornalista
jmtavares@dn.pt
Diz-me com quem andas e eu dir-te-ei quem és? Cruz credo, espero que não. É que no meu entusiasmo por Barack Obama vejo-me acompanhado de Mário Soares e Ana Gomes e toda aquela esquerda catita que está sempre disposta a saltar para cima do cavalo e disparar a galope, porque o mundo geme de dor e necessita de salvamento. Assim de repente, acho que da última vez que concordei com Soares o meu vocabulário se resumia às palavras "gugu" e "dada" e os comunistas estavam a querer tomar conta do país. Então, dou por mim a pensar: por que estamos nós juntos por Obama, enquanto o pessoal de direita e centro-direita com que mais me identifico acusa o homem de ser um golpe de marketing e aposta o ordenado em John McCain?
Claro que há o lado factual: dizer, como Pacheco Pereira disse, que Obama é só marketing - ou seja, que ele não tem nada mais do que talento para falar em público e vender ideias vagas de "esperança" - é uma profunda idiotice, que não resiste a dois minutos de análise séria. Mas há mais do que isso. Eu diria que a direita conservadora está tão habituada a desconfiar de toda a gente que acaba por ter vergonha de acreditar em alguém. Noventa e nove por cento das vezes, estará certa: o estado de permanente suspeita é um forte escudo contra a desilusão e uma forma eficaz de vigiar a acção política. Só que o problema é quando ficamos cegos ao que efectivamente brilha, tão habituados que estamos a nivelar tudo por baixo. Obama fala tão bem que não pode deixar de ser fabricação, certo? Mas e se, por uma vez - só desta vez -, ele for o artigo genuíno?
Um colunista faz da desconfiança a sua profissão. E por isso é crítico. Pessimista. Relutante. É a herança de uma longa tradição da imprensa enquanto watchdog, e bem vistas as coisas esse cepticismo é uma das mais nobres qualidades que um produtor de opiniões tem para oferecer. Só que há uma reserva mínima de esperança na natureza humana que me parece indispensável manter; uma capacidade de acreditar no futuro e de reconhecer um político incomum quando ele aparece. Não se trata de achar que Barack Obama vai endireitar o mundo a partir da Casa Branca. Trata-se de acreditar que ele tem talentos excepcionais para exercer o cargo de presidente dos Estados Unidos da América. Em quase 35 anos de vida, nunca encontrei um político que me fascinasse tanto e não faria sentido esconder essa admiração com medo do erro ou da desilusão. Se há alturas na História em que devemos correr o risco de acreditar, esta é com certeza uma dessas alturas. E por isso eu sou por Obama, como nunca fui - e muito provavelmente nunca voltarei a ser - por outro político. Mesmo que em Novembro ele acabe derrotado. Ou pior: mesmo que eu acabe derrotado, com Mário Soares a aconchegar-me o ombro e Ana Gomes a estender-me os kleenexes.
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