por
Fernanda Câncio
jornalista
fernanda.m.cancio@dn.pt
Lembram-se de Joana d'Arc? Entre os 16 e os 19 anos, no século XV, chefiou exércitos, ganhou batalhas, foi ferida em combate. Capturada numa escaramuça, quando, ao dar ordem de retirada aos seus guerreiros, ficou para trás para lhes cobrir a retaguarda, acabou queimada como herege. Uma das acusações era a de se vestir "à homem". Nenhuma forma de saber, a esta distância, se tinha ou não "a emotividade de uma mulher" ou se a espada que empunhava e a armadura que envergava lhe pesavam em demasia. Mas o almirante Vieira Matias, ex-chefe do Estado-Maior da Armada, não tem dúvidas: as mulheres não devem participar em situações de combate porque a sua "emotividade" o desaconselha (podem desatar a chorar, imagina-se, borrar orímel, falhar os alvos e despenhar o helicóptero) e "o esforço, até mesmo o peso do equipamento, poder ser excessivo" (o almirante terá já dado à luz durante 13 horas sem anestesia ou andado de saltos agulha na calçada lisboeta com sacos de supermercado?).
Ao reagir, para o DN, ao despacho do ministro da Defesa no sentido de acabar com a discriminação das mulheres no acesso a "tropas de elite" como os fuzileiros navais, Matias foi, digamos, menos hábil que os generais Garcia Leandro e Loureiro dos Santos, que consideram deverem elas, "em nome da igualdade", poder candidatar-se, mas insinuam que a exigência do treino se encarregará de as pôr no lugar.
A discussão é velha, ou Joana d'Arc não tivesse acabado como acabou. Se há países, como a Suécia, a Nova Zelândia e a Dinamarca, que não interditam qualquer especialidade às mulheres-soldados, os EUA e o Reino Unido, bastiões do feminismo, barram-nas das forças de elite. Ele é a necessidade de separação de alojamentos (como se fosse impensável homens e mulheres dormirem juntos); ele é a hipótese de relacionamentos amorosos e/ou sexuais (nunca deve ter havido homossexuais na tropa) e de abuso sexual das mulheres em caso de captura (se todas as forças de combate fossem mistas era capaz de haver menos violações perpetradas na guerra), ele é o cavalheirismo natural deles que os fará "arriscar tudo para as salvar". Tudo somado, resta o argumento biológico/físico: os homens têm mais força física e um mais elevado nível de agressividade aparente. É relevante? É, sobretudo se as batalhas forem travadas à paulada.
O facto de ao longo da história a maioria dos soldados, bons e maus, ter sido do género masculino não é grande demonstração de que os homens são melhores soldados. Estabelecer a igualdade e aferir entre os candidatos, com honestidade e sem a prioris, quem tem condições psicológicas e físicas para cada posto parece um bocado mais inteligente. Certo é que em Portugal, além de Deuladeu Martins, que aguentou o cerco de Monção no século XIV, e da padeira de Aljubarrota, não há guerreiras lendárias para inspirar as fuzileiras lusas. Mas podem sempre lembrar GI Jane, o (sofrível) filme de Ridley Scott sobre uma primeira candidata aos fuzileiros americanos. E repetir o que ela, Demi Moore, dispara ao instrutor e seu oponente no fim do ritual combate de boxe (a prova de agressividade) quando este lhe pergunta se quer desistir: "Suck my dick." É calão e do pior - mas é d'homem, não é?|
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