por
João Marcelino
1Como confirmar que em Portugal se vive com uma segurança de fazer inveja, mesmo no contexto europeu? Pelos números da estatística, claro. Mas podemos, ainda, fazer essa descoberta pelo conhecimento do mundo. Quem tem o privilégio de poder viajar sabe que isto é verdade. E mesmo quem gosta de se mortificar na leitura de jornais capazes de manter a fotografia de uma vítima de homicídio dias e dias a fio na primeira página, ou de classificar o mundo pela abertura dos telejornais, deveria saber comparar. No cabo estão lá os canais e os programas suficientes para nos permitir comprovar como a sociedade portuguesa vive uma situação apesar de tudo excepcional, sem os piores problemas da criminalidade organizada ou da imigração selvagem. Ajuda-nos neste caso a periferia que em quase tudo o resto nos aflige.
Mas como se diz isso a quem vive nos bairros periféricos onde ainda assim o dia-a-dia é marcado pelo sobressalto permanente?
E, acima de tudo, como acalmar a dor de quem perde um familiar, um amigo, num assassínio tão brutal quanto gratuito?
A verdade geral, bem o sabemos, não tem significado para quem é tocado pela injustiça particular.
É legítimo, e normal, o alvoroço informativo por fenómenos de cariz invulgar na sociedade nacional, como por exemplo a guerra pelo controlo do negócio da noite nas duas grandes cidades, e que motivam notícias com mais mercado do que a sensaboria oriunda das movimentações políticas, mas o jornalismo deve saber cumprir a sua função e, ao mesmo tempo, manter a cabeça fria. Num momento em que abundam os reguladores candidatos a tutelar a actividade dos media, o valor da informação mede-se também pela sua serenidade.
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