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Mulher da marcha dos cem dias

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FERNANDO MADAÍL  

Pintasilgo. Em 1979, apesar de ser num Governo de iniciativa presidencial e a prazo, Portugal juntava-se à Inglaterra: também tinha uma primeira-ministra

"Eleições intercalares serão integralmente democráticas." O título do DN de 2 de Agosto de 1979 nem parecia noticiar a tomada de posse do V Governo Constitucional, liderado por Maria de Lurdes Pintasilgo (o célebre V Governo de Vasco Gonçalves foi um dos seis Provisórios, isto é, formados antes de haver eleições legislativas), facto que, por si só, já lançava uma série de novas questões. Afinal, devia dizer-se primeiro-ministro ou primeira-ministra? Nessa época, ministra era um termo depreciativo, que se colava à esposa do ministro - como "generala". Não se estranha: o 25 de Abril tinha apenas cinco anos e, durante a ditadura, a mulher nem sequer podia ter passaporte sem autorização do marido, juridicamente o "chefe de família".

"Ao desafio lançado responderemos sem equívocos", discursava Pintasilgo na cerimónia realizada no Palácio da Ajuda. Não se referia, porém, a esta questão linguística nem a outras estranhezas pelo facto de ser a segunda mulher europeia a chefiar um executivo - Margaret Thatcher ascendera ao poder na Grã-Bretanha em Maio.

Para quem não viveu nesse tempo pode ser difícil entender o que então se passava. Na infância da democracia e do novo regime, o Presidente da República, Ramalho Eanes, já empossara quatro gabinetes: um do PS, minoritário, que caiu pela rejeição de uma moção de confiança; o de aliança entre PS e CDS, que durou poucos meses: dois de iniciativa presidencial, liderados por Nobre da Costa, que teve logo o programa de Governo chumbado no parlamento, e por Mota Pinto (o fundador do PPD tinha saído em ruptura no Congresso de 1975, vindo mais tarde a reconciliar-se com Sá Carneiro e a ser, entre 1984 e 1985, presidente do partido, formando depois, com Mário Soares, o Governo do Bloco Central), que se demitiu.

Neste contexto, Pintasilgo formava um executivo apenas para garantir o funcionamento do País até às eleições antecipadas que Eanes resolvera, então, convocar - e que abriria o caminho à AD, a coligação entre PSD, CDS e PPM. "'Marcha de cem dias', foi como Maria de Lurdes Pintasilgo se referiu ao que espera o V Governo, que definiu como 'coeso, colegial, assente no diálogo, na concertação, no consenso'." E, apesar de ainda ter enfrentado uma moção de rejeição do seu programa, apresentada pelo PSD (na altura com 37 deputados dissidentes, que formariam a ASDI e, mais tarde, integrariam uma frente eleitoral com o PS e com a UEDS) e pelo CDS, tinha ministros como Sousa Franco, Loureiro dos Santos, Costa Brás, Bruto da Costa, Sedas Nunes, Sá Borges, Correia Gago.


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