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Evas e Vénus

por

FERNANDO MADAÍL  

Arte no feminino. O cânone ocidental não existiria como o conhecemos se não houvesse uma multidão de mulheres que foram sendo representadas, com os mais distintos objectivos, pelos pintores e escultores que se imortalizaram na História

Um triângulo negro entre as pernas, pintado como se fosse uma fotografia ampliada, é uma das molduras mais inesperadas com que o visitante depara no parisiense Museu d'Orsay. Nem o título A Origem do Mundo, escolhido por Gustave Coubert para a sua escandalosa tela datada de 1866, consegue disfarçar que se trata apenas do símbolo máximo do desejo sexual masculino. O motivo central do quadro daquele realista - que terá sido encomendado, há século e meio, por um coleccionador de obras eróticas - é mesmo a vagina da bela irlandesa que lhe servia, então, de modelo.

E se o feminino na arte pode ser entendido apenas na perspectiva da obra das inúmeras mulheres artistas - de Georgia O'Keeffe a Eija-Liisa Ahtila há assinaturas para todas as estéticas, com uns preferindo Natalya Goncharova a Louise Bourgeois, Vieira da Silva a Paula Rego, Tamara de Lempicka a Niki de Saint Phale, Magdalena Abakanowicz a Pipilotti Rist, Liubov Popova a Louise Nevelson, Marina Abramovic a Rebecca Horn, que a lista é infindável -, torna-se bem mais curioso verificar que, se se excluísse a figura feminina, perdia-se a maior parte das obras que compõem o cânone ocidental.

A mulher como alvo do olhar alheio, além de ser uma constante ao longo de toda a História da Arte, serviu para expressar as mais contrastantes realidades, as mais distintas ideias, seja a da Madonna ou a das madames, a do corpo ou a do desejo, a do sagrado ou a da sensualidade. Correram os séculos, sucederam-se as revoluções sociais e as rupturas estéticas, foram sendo substituídos os padrões de beleza e as modas de cada tempo. E, no entanto, o vulto feminino, em lugar de destaque ou como elemento da composição, jamais perdeu o seu lugar como tema de pintores e escultores, como ícone insubstituível para representar o real e a fantasia, o angélico e o sensual, o pó de arroz e a poeira do trabalho, o naturalismo e o surrealismo.

Da Virgem a pisar nuvens até à odalisca estendida sobre lençóis, as imagens de mulher repetem-se: Eva ou Vénus, mãe ou amante, deusa ou despida, retrato ou alegoria, recatada ou protagonista. Parece que nada substitui aquela figura quando os artistas querem representar a vida ou o sonho, a desgraça ou a magia, o enigma ou a elegância, a fragilidade ou o poder. E, apesar de haver quem considere que se trata de peças menos respeitáveis, envoltos em drapejamentos ou revelados na sua nudez, também não faltam nos museus eróticos triângulos femininos. |


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