por
FERNANDA CÂNCIO
A autora de um conto infantil sobre pais 'gay' espanta-se com o espanto
"Lembrei-me de fazer este livro como me lembrei de fazer um livro sobre um avô que toma conta de um neto, e outro sobre um pai leão que não aceita o filho leão porque ele é diferente". Manuela Bacelar garante, embora confesse que houve editoras "a torcer o nariz ao tema" antes de a Afrontamento ter decidido publicar, só ter dado conta do capital de novidade de O Livro do Pedro com "as vossas perguntas" (dos jornalistas). "Não pensei nisto numa perspectiva política, ou de activismo. O meu raciocínio à partida foi fazer uma família feliz, em que o importante não era ter, era ser. E não me apeteceu pôr o eterno pai e a eterna mãe - e pensei: e porque não pôr dois homens? E pus."
Ilustradora "a tempo inteiro" desde 1988, quando arriscou largar o seu emprego no Auditório Carlos Alberto, no Porto, onde fazia programação, e viver do que mais gostava de fazer, Manuela Bacelar é sobretudo conhecida como a criadora do Tobias, "um menino pequenino que mede sete centímetros e que é um desenho que se torna gente. É aquela coisa clássica que tem a ver com o Pinóquio, só que o Pinóquio é mau e o Tobias é melhor pessoa". Já vai em nove livros do Tobias, no meio de uma bibliografia de mais de 50 volumes (a própria não tem a conta certa) em que alguns são também escritos por ela. "Quando comecei a tentar fazer álbuns as editoras não estavam receptivas, só se faziam livros infantis para os miúdos de nove, 11 anos. Agora deu em moda."
Desde menina que aprecia livros ilustrados, relativamente raros em Portugal. "O primeiro livro que tive era um livro inglês lindíssimo, O Pequeno Barney. Não sabia inglês, claro, mas traduziam-me a história. E herdei uns livros franceses da minha mãe, que ainda conservo, e uns livros lindíssimos ilustrados pela Raquel Roque Gameiro, muito arte nova. De tal modo que fiz um cocktail: quando me contavam histórias de fadas eu imaginava meninas do Boticelli. Eu adorava fadas, queria ser fada."
Se este fosse um texto em inglês, a palavra fada (em inglês fairy, também utilizada para referir depreciativamente os homossexuais masculinos), faria uma irresistível ligação com o último trabalho de Manuela Bacelar. Mas sobre a questão da discriminação dos homossexuais diz nunca se ter debruçado muito. "Estou agora a pensar mais nisso, por causa das entrevistas. E tenho de chegar à conclusão de que se não há adopção [a lei portuguesa proíbe que casais do mesmo sexo adoptem] há discriminação - é óbvio, não é?" A pergunta retórica não espera resposta. "Vou ao café e oiço dizer-se: 'Eu não sou homofóbico, mas uma menina viver com dois pais faz-me muita impressão'. Como se nas famílias heterossexuais não houvesse bons e maus pais. E crianças maltratadas, como se vê nos jornais todos os dias".
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