por
Mário Soares
1 . Na última semana houve dois alertas fortíssimos contra a corrupção que está a corroer a sociedade portuguesa e o prestígio do Estado: o do gen. Garcia Leandro, que disse sentir crescer uma grande indignação popular contra casos sucessivos de corrupção, que são conhecidos, murmurados, insinuados, mas não investigados, a ponto de temer uma explosão incontrolada da ira popular; e o do novo bastonário da Ordem dos Advogados, dr. Marinho Pinto, que disse conhecer casos de tráfico de influência escandalosos e negócios suspeitos entre políticos, de sucessivos governos, empresas e empresários que actuam em Portugal. Trata-se de benesses e de concessão de favores que são "recompensados", depois, por chorudos lugares de gestão nessas mesmas empresas. E de negócios e empreendimentos milionários que implicam favores do Estado e concessões das autarquias, que se sobre- põem às regras públicas do ordenamento do território com o pretexto de potencial interesse nacional (PIN).
O grave é que tudo se passe na maior impunidade, sem que as instituições do Ministério Público, policiais e de controlo investiguem os rumores que circulam ou, se o fazem, as investigações não são divulgadas para terem, ao menos, a consequente sanção moral. A comunicação social às vezes fala e escreve. Mas como não há resposta o silêncio é suposto fazer esquecer. Será assim?
Por outro lado, a justiça é lenta, muito lenta, e dá a sensação de ser inconclusiva e de não actuar com a celeridade necessária nessas matérias "delicadas". Os exemplos saltam à vista: desde o julgamento do processo "Casa Pia", que se eterniza, ao "Apito dourado", aos processos abertos contra autarcas e a tantos outros. São exemplos extremamente mediatizados, mas como parecem ser inconclusivos só servem para desacreditar a eficácia da justiça.
A investigação pela Polícia Judiciária do caso Madeleine McCann, que emocionou o País e foi tão divulgada no estrangeiro, sobretudo no Reino Unido, é outro exemplo que não coloca bem Portugal. É sabido, pela experiência alheia, que uma tal investigação não é nada fácil. Mas a Polícia Judiciária, por isso mesmo, deveria ter-se resguardado mais da curiosidade insaciável dos media, e não ter referido tantas pistas e contrapistas, chegando a declarar arguidos os pais da infeliz menina. Para quê, se não tinham provas? Para agora o director da Polícia Judiciária, Alípio Ribeiro, reconhecer que a organização que dirige "agiu por forma precipitada". Houve, com efeito, demasiadas declarações precipitadas, incluindo talvez a dele...
O caso do BCP, de contornos ainda não totalmente claros, ocupou muitas páginas da imprensa e muitas horas das rádios e das televisões. Tornou-se um escândalo inimaginável, que atingiu, infelizmente, o sistema bancário e contribuiu imenso para alimentar o ambiente deletério - e de desconfiança - em que vive a sociedade portuguesa. Ora, ao que parece, não vai parar. Outros se seguirão, ao que consta...
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