por
Mário Soares
1 . Escrevo na super terça-feira, 5 de Fevereiro, quando ainda não se conhecem, em Portugal, os resultados das eleições primárias em 22 estados dos Estados Unidos. Do lado democrata, o duelo trava-se entre Barack Obama e Hillary Clinton e, do lado republicano, parece não haver duelo mas consagração do veterano do Vietname, John McCain, conservador mas não neo-con.
Claro que estas eleições não são ainda concludentes. Mas representam uma indicação muito significativa das intenções do eleitorado.
Pelo meu lado os leitores sabem que, se fosse americano, votaria em Barack Obama, sem hesitações. Não por ser negro, embora isso conte como sinal de mudança, inimaginável há poucos anos, mas por ser um político aberto, progressista, lúcido, coerente e disposto a mudar profundamente tanto a política interna como a externa dos Estados Unidos. No sentido da paz, do diálogo social e internacional, do respeito pelos Direitos Humanos e pelas Nações Unidas, da defesa do ambiente e da solidariedade internacional. É certo que Hillary partilha de alguns destes mesmos objectivos. O que é em si mesmo uma boa coisa. Mas não de uma forma tão coerente e firme. Por outro lado, não deixará de ser sensível a certos grandes interesses económicos tradicionais, a que Clinton esteve ligado, o que a obrigaria, se fosse eleita, a algumas concessões e transigências, que tenderão a atrasar a grande mudança necessária. Por isso prefiro Barack Obama. A menos que a dupla fizesse equipa como não parece impossível depois do último debate televisivo em que ambos se apresentaram como excepcionalmente cordatos.
2. Um péssimo exemplo. A nota emitida pela Conferência Episcopal espanhola, em 31 de Janeiro último, em seguimento, aliás, de outras intervenções, nos púlpitos e nas ruas, tendo em vista - e tomando descaradamente partido - nas eleições legislativas, marcadas para 9 de Março próximo, em favor do PP, representa uma intromissão inaceitável da parte de uma instituição religiosa num Estado de Direito Laico.
Com efeito, a referida nota vai ao ponto de insinuar a desobediência às leis do Estado Democrático, legitimamente aprovadas e homologadas, e a criticar o laicismo "radical", sem dizer o que entende por radical, em matéria de laicismo. Ora o laicismo significa tão-só separação do Estado das Igrejas. Como o Concílio Vaticano II bem explicou: "A César o que é de César..." Trata-se, realmente, de um péssimo exemplo, em termos europeus, dado pelo episcopado espanhol, uma vez que o laicismo é a regra de todos os Estados da União. Os senhores bispos não devem permitir-se pensar a monarquia constitucional espanhola como se fosse uma teocracia católica. Não é. Os tempos da "cruzada", abusivamente em nome da fé, passaram. Em Espanha há liberdade religiosa. É por isso que os senhores bispos e padres podem individualmente fazer as escolhas políticas que entenderem. Mas a instituição Igreja deve ser neutral em matéria político-partidária, especialmente em vésperas de actos eleitorais.
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