por
Mário Bettencourt Resendes
provedor@dn.pt
O leitor Hugo Fontainha Gomes dirigiu--se ao provedor, lançando sobre o DN a suspeita de uma "deriva portista". Para sustentar a sua crítica, apresenta dois exemplos: "O DN de 20 de Dezembro fez manchete com a ameaça de 'deixar o Estádio da Luz vazio'; sensacionalismo à parte, a legislação a que se refere a peça já vem sendo discutida há bastante tempo. Porquê a manchete agora? Será uma forma canhestra de compensar as notícias - bem mais actuais e relevantes, diga-se - sobre o envolvimento da claque do FCP nos assassínios ocorridos no submundo portuense?" O segundo exemplo parece, ao provedor, assaz rebuscado: "No mesmo dia, o DN anuncia, no seu suplemento DN/Emprego - o sistema de mediação laboral permite resolver conflitos entre trabalhador e entidade patronal sem a intervenção de um tribunal; depois de Porto, Lisboa e Braga, o programa vai agora chegar a mais sete distritos. Pergunto eu: que critério foi utilizado nesta frase para a ordenação das capitais de distrito? Ordem alfabética? Negativo. Ordem pela qual o dito programa foi adoptado? Nada no texto no-lo faz supor. Ordem de grandeza? Imaginária, quiçá..."
Comecemos pelo segundo exemplo e arrumemos a questão. Caro leitor, as redacções não estão invadidas por conspirações regionalistas (nem por anjos, também é verdade). Conforme se explica, a este propósito, o editor Renato Santos, "não houve qualquer critério geográfico ou alfabético (...) e num caso destes não me parece que tivesse de haver". O provedor concorda e permite-se sugerir ao leitor uma exercício crítico mais orientado para outras questões, de maior substância, relacionadas com conteúdos jornalísticos, deixando de parte as que, nas próprias palavras de Hugo Gomes, "na aparência não passam de lana caprina".
Já o primeiro exemplo apresentado pelo leitor fornece matéria para maior reflexão. A jornalista Sílvia Freches remeteu ao provedor um comentário que justifica, em termos factuais e apontando datas, a oportunidade da notícia do DN. O director do jornal faz o enquadramento da questão: "Não há, no jornalismo que se pretenda sério e de qualidade, qualquer lei de compensação. (...) Rejeito qualquer insinuação de que tenhamos dado destaque a uma notícia sobre o universo Benfica para compensar outras que, de alguma forma, envolveriam o FC Porto. (...) A claque do FC Porto, ao contrário do que afirma o leitor, não está envolvida 'nos assassínios ocorridos no submundo portuense'. Nesta fase do processo, pelo que se conhece, isso é uma generalização sem sentido e difamatória; outra coisa bem diferente é dizer- -se que alguns dos elementos envolvidos nessa onda de marginalidade recente têm ou tiveram, em determinados momentos, relações visíveis com a mais conhecida das claques do FC Porto."
As explicações são satisfatórias, não parecendo, de facto, haver matéria substantiva para invocar qualquer "deriva" ou "lei da compensação". O episódio vale, no entanto, como bom pretexto para alguma dissertação sobre a isenção da informação desportiva, designadamente na imprensa da especialidade, um tema que alimenta sempre discussões acaloradas.
O provedor decidiu, a este propósito, ouvir os directores dos três diários desportivos que se publicam em Portugal: Vítor Serpa (A Bola), Alexandre Pais (Record) e Manuel Tavares (O Jogo). Os depoimentos são publicados, na íntegra, noutro local desta página e permitem uma conclusão que merece ponderação por parte dos responsáveis do DN: os diários desportivos estão, compreensivelmente, muito dependentes dos mercados de leitura em que se movimentam; por outro lado, a sua relação com determinadas fontes, num cenário de concorrência crescente, restringe a abordagem de alguns temas mais sensíveis e abre um novo campo de manobra para a imprensa generalista que queira apostar numa melhoria da sua informação desportiva.
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