por
João Miranda
Investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com
Em Maio de 2007, o Governo enfrentava um grave problema político. O aeroporto na Ota era visto pela opinião pública como demasiado caro e distante da região que deveria servir. A Ota tornou-se um foco de contestação por ser um projecto megalómano e insustentável. Qualquer outra opção era, aos olhos da opinião pública, uma solução melhor. O estudo do LNEC salvou o Governo de um desastre político. Permitiu-lhe optar por uma outra localização (Alcochete) que não tem a carga negativa da Ota mas que preserva aquilo que era essencial para o Governo. Tal como a Ota, Alcochete pode servir para fazer uma grande obra de regime.
Os críticos da Ota queriam evitar a repetição dos erros já cometidos com o porto de Sines, a Expo'98 e os estádios do Euro 2004. Queriam impedir que se gastassem fundos públicos numa obra cara, desnecessária e desadequada às necessidades. Como todas as grandes obras do regime, o projecto do aeroporto da Ota focava-se demasiado na imponência e no gigantismo e muito pouco na relação custo/benefício, na sustentabilidade, na funcionalidade ou nas necessidades da procura.
É claro que a opção por Alcochete pode ser tomada pelas boas razões. O aeroporto de Alcochete pode ser construído por fases, requer um baixo investimento inicial, é compatível com o prolongamento do tempo de vida da Portela e pode ser pensado para o tráfego de companhias de baixo custo. Ao contrário do aeroporto na Ota, o aeroporto em Alcochete é uma solução compatível com o modelo Portela +1, porque Alcochete pode funcionar numa fase inicial como o aeroporto complementar da Portela, e numa fase posterior ao encerramento da Portela como o aeroporto definitivo da região de Lisboa.
No entanto, Alcochete agrada ao Governo pelas más razões. É uma oportunidade para construir uma grande obra de regime, uma cidade aeroportuária, um grande hub intercontinental capaz de rivalizar com Frankfurt e com Heathrow. O projecto de Alcochete é promovido pelos mesmos políticos e será feito pelos mesmos técnicos e as mesmas instituições que se preparavam para fazer um elefante branco na Ota. Não há, de momento, nenhuma razão para se pensar que os erros que estavam a ser cometidos na Ota não serão cometidos em Alcochete. A opinião pública concentrou-se demasiado no problema da localização do aeroporto e muito pouco no modelo do aeroporto. Se em Alcochete for construído um aeroporto gigantesco sem qualquer preocupação com o custo ou com as necessidades dos clientes, se a Portela for encerrada antes de se aproveitar todo o seu potencial remanescente e se a ANA continuar a deter o monopólio de todos os aeroportos do País, então Alcochete não passará de uma Ota encapotada.|
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