por
Fernanda Câncio
jornalista
fernanda.m.cancio@dn.pt
I sto das lágrimas é muito importante. A mãe de Maddie foi crucificada porque não chorava - não chorava como devia chorar uma mãe, ou seja, uma mulher. Não me recordo de ter lido uma linha sobre Gerry, o marido e pai, não chorar. As lágrimas são uma espécie de tarefa feminina, um atestado de sentimentos periclitantes e profundos, de corações sensíveis e maternais como é suposto serem os das mulheres.
Uma pessoa - quer dizer, uma mulher - cansa-se à brava de observar a repetição e de repetir a observação destas coisas, mas é fascinante como a dureza, ou a aparência dela, é valorizada de forma diferente nas mulheres e nos homens. Um homem que não chora perante a adversidade é UM HOMEM. Com as maiúsculas todas. Um valente, um duro - e ser "um duro", sabe-se, é do melhor. Já ser "uma dura", que horror. Uma mulher que não chora (em público, claro, mas se não chora em público não chora, ponto) é uma espécie de aberração. Por exemplo a Hillary: nem uma lagrimita deitou quando o marido a encornou ao vivo e a cores em tudo o que é telejornal. Se chorasse a malta tinha pena, assim a malta acha que aquilo não lhe custou nada porque é uma cabra duma ambiciosa. "Fria", portanto. E pior: "agressiva". A única mulher a disputar o lugar de presidente dos EUA, a única que alguma vez chegou tão longe na política americana - num país onde, como lembrou há dias Gloria Steinheim no New York Times, o direito de voto foi concedido aos homens negros 50 anos antes de qualquer mulher poder fazê-lo - é "demasiado agressiva", ena.
Ou era, até esta semana. Uma mulher perguntou-lhe como aguentava a dureza da campanha e conseguia aparecer sempre com um aspecto "tão maravilhoso" e a nossa empedernida Hillary desmanchou-se. Não chorou, apesar de toda a gente ter falado em "lágrimas", mas ficou sem voz, os olhos a rebentar. Não falta quem ache que foi encenado, e não faltou quem predissesse que o show de vulnerabilidade podia fazer a diferença nas primárias do New Hampshire, onde veio a ficar em primeiro lugar entre os democratas. Mas tenho para mim que ela não ensaiou aquilo. E que a palavra-chave foi "aguentar". Perguntem a uma dura como é que aguenta os insultos e os comentários foleiros e os reveses da fortuna. Perguntem a uma dura como consegue continuar dura quando a julgam por tudo e por isso também, e perguntem-lho como quem quer saber. Era a última pergunta que ela esperava: a de alguém da idade dela, que sabe o quanto uma mulher, mesmo e sobretudo quando concorre a um lugar que sempre foi de homens, é julgada, antes de mais, pelo cabelo e pela maquilhagem e pela forma como lhe assenta o tailleur e por todos os estereótipos da feminilidade, incluindo o da sensibilidade, antes de se começar sequer a ouvir o que tem para dizer. O que aquela mulher disse a Hillary foi, "sei que estás feita num oito, mas mesmo assim aguentas-te. Como consegues?" A grande ironia é que ao não aguentar mais, ao provar que "afinal é mulher", a dura talvez ganhe votos. Como dizem os americanos, ain't life a bitch.|
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