por MARINA ALMEIDA
Esta semana acabaram os longos meses de agonia dos trabalhadores da Fábrica de Faianças Bordalo Pinheiro. Na terça-feira, o grupo de Viseu Visabeira tornou-se accionista maioritário da empresa e disse que vai garantir os 172 postos de trabalho. O DN visitou a fábrica onde continuam a nascer animais, flores e frutos do universo bordaliano. A produção não parou como chegou a ser anunciado e há sinais de inovação: estão a ser recuperados e recriados os bichos gigantes e centenários
O cágado enorme, imóvel, espreita das águas do pequeno lago da Fábrica de Faianças Rafael Bordalo Pinheiro. Também lá estão rãs e folhas de nenúfar. Depois de terminar a visita à fábrica e à profusão de formas, cores, animais e plantas que Bordalo ceramista concebeu e seus moldes preservam, ficamos sem saber se também o cágado faz parte da natureza estática do artista. As bolhinhas na água dão o sinal e mostram que aquele bicho está vivo. Afinal, como todos os outros.
"Está a nascer um sardão gigante", diz Elsa Rebelo, ceramista, filha de ceramistas, que nos guia numa das unidades da fábrica. Na zona de enchimento, Francisco Serrenho apura o torso deste réptil (ainda) sem cor, com todos as variações de escamas que o molde centenário (recuperado, tal como o de outras figuras gigantes estão a ser, há meia dúzia de anos) reproduz. Passa depois às pernas do gato assanhado.
Durante os meses de agonia, a fábrica não parou e a dedicação dos trabalhadores fez nascer mais bichos fantásticos. "Um gato assanhado por dia, dois sardões por semana." Elsa faz as contas à fauna que está na linha de montagem, diz que cada sardão vai custar 1200 euros e cada gato 50. Diz que as patas e a cauda hão-de sair de outros moldes, que as peças levam uma primeira cozedura a 1100 graus e só depois são unidas. Depois da pintura, os animais voltam ao forno. A ceramista explica também que o barro vermelho foi incorporado na produção para permitir a construção de peças grandes - como o sardão, as abelhas, os caracóis, a lagosta.
A profusão da natureza está presente em todos os momentos do processo de produção - na atenção aos detalhes, na imponência das figuras gigantes, na explosão das cores. "Rafael era exuberante, fazia o impossível acontecer", diz Elsa com a certeza de quem todos os dias descobre uma novidade na obra do homem que paira pela fábrica.
Os moldes que ainda hoje, 125 anos depois, preservam o traço e o génio de Rafael Bordalo Pinheiro alinham-se num armazém. São caixas rectilíneas que se abrem e transformam em quase vida. Lê-se nas caixas: "Figo", "tomate", "tronco de girassol", "tronco de vinha", "folhas de nespereira", "pétalas de girassol"... é uma imensidão de detalhes. "Bordalo Pinheiro deixou-nos um mar de referências", resume.
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